O aumento do tempo diante de telas na infância é apontado como uma emergência global por especialistas. A preocupação não é apenas sanitária, mas também educativa, social e econômica para o futuro das crianças.
O pedagogo italiano Francesco Tonucci, criador da Rede Mundial de Cidade das Crianças, classifica o uso precoce de smartphones e tablets entre 0 e 6 anos como uma “segunda pandemia” do século XXI, com impactos no presente e no futuro.
Para Tonucci, a prática é iniciada ainda no berço, com pais que recorrem às telas para acalmar os pequenos. Ele cita momentos de amamentação em que o contato visual é trocado pela tela, perdendo o que considera um “momento mágico”.
A depender da idade, o uso de telas em ambientes públicos também é frequente, diz Tonucci. Em restaurantes, estações e aeroportos, a calma aparente pode, segundo ele, mascarar danos ao desenvolvimento e à disposição para brincar livre.
Ciência e impactos no desenvolvimento
Estudos recentes reforçam a importância dos primeiros seis anos de vida. Segundo o Center on the Developing Child, da Universidade Harvard, o cérebro forma mais de 1 milhão de conexões neurais por segundo nesse período, justificando investimentos públicos.
Pesquisadores como James Heckman mostram retorno de pelo menos US$ 7 para cada dólar investido na primeira infância, destacando benefícios para o desenvolvimento e para o mercado de trabalho.
Para Tonucci, a “vacina” contra a pandemia digital é o brincar livre. A Rede Mundial de Cidade das Crianças aponta que crianças preferem atividades presenciais com pares, especialmente sem supervisão constante de adultos.
A proposta envolve melhorias urbanas que facilitem a presença de crianças na rua, como praças e parques, além de reduzir a dependência de dispositivos para a formação de laços sociais.
Realidade brasileira e caminhos
Marcelo Peroni, da Rede de Cidades da Criança no Brasil, enfatiza que proibir celulares não basta. É necessário oferecer espaços públicos seguros para crianças circularem sozinhas, aproximando famílias e comunidades.
Para Peroni, ruas ativas reduzem custos sociais e elevam bem-estar familiar. Lorena Morachimo, da rede Cidade das Crianças, defende estratégias de prevenção sanitária ao afastar as telas, especialmente para evitar problemas de saúde mental infantil.
Michelle Schneider reforça que habilidades como pensamento analítico, criatividade e empatia não se constroem em telas. Ela cita o Future of Jobs, do Fórum Econômico Mundial, destacando a importância de interação e brincadeiras para o desenvolvimento.
Ela alerta para a “terceirização da parentalidade” por grandes empresas de tecnologia. Segundo Schneider, crianças precisam de mediação humana e limites; senão, engajamento não é sinônimo de desenvolvimento saudável.
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