Duas a três parágrafos de texto inicial.
Uma jovem paulistana, Lilian Ramos, de 24 anos, relatou ter sido abordada por um homem norte-americano durante férias na cidade do Rio de Janeiro. O diálogo começou de forma aparentemente casual, mas tornou-se insistente quando o estrangeiro passou a perguntar sobre residência, profissão e renda. A conversa se intensificou após perceber que Lilian falava inglês com fluência, o que a trouxe a conclusão de que a abordagem visava um perfil específico de mulher. A experiência foi associada pela estudante ao movimento conhecido como passport bros, formado por homens que viajam para países emergentes em busca de relações com mulheres vistas como mais tradicionais ou vulneráveis.
O tema ganhou atenção recente por meio de debates acadêmicos e reports jornalísticos. O termo passport bros apareceu pela primeira vez em 2011 no documentário Frustrated, que acompanhava viajantes norte-americanos no Brasil. A partir de 2019, a hashtag ganhou força nas redes sociais, expandindo-se para plataformas como YouTube e Reddit, com fóruns que atraem dezenas de milhares de visitantes semanais. Pesquisadores indicam que o fenômeno envolve não apenas relacionamentos, mas uma narrativa política sobre gênero.
Panorama e desdobramentos
Para a socióloga Bruna Camilo, doutora pela PUC Minas, o movimento usa a viagem como contexto, mas opera como uma construção ideológica sobre relações de gênero. Ela aponta que influenciadores associam feminismo a mudanças indesejadas, sugerindo que mulheres ocidentais seriam excessivamente independentes. Estudos recentes, incluindo um levantamento global da Ipsos em 2026, mostram que parte da Geração Z concorda que os direitos das mulheres já avançaram o suficiente, o que alimenta discussões sobre papéis tradicionais no casamento.
Estereótipos e fetichização
Analistas destacam que fóruns online do movimento trocam recomendações de destinos e promovem estereótipos acerca de nacionalidades. Pesquisadora Bruna Camilo afirma que essas representações reduzem mulheres a traços percebidos por nacionalidade e alimentam a fetichização. Ela ressalta que tal visão desumaniza e transforma identidades femininas em atributos desejáveis para atender expectativas masculinas, perpetuando desigualdades históricas.
Poder, mobilidade e legitimidade
Um dos nomes mais visíveis do movimento é Austin Abeyta, com mais de 500 mil seguidores em plataformas digitais. Em entrevista, ele disse ter descoberto no relacionamento com mulheres de outros países uma dinâmica mais estimulante, após experiências frustradas nos Estados Unidos. Pesquisadores destacam que o problema não está na prática de viajar, mas na lógica que associa determinadas nacionalidades a vantagens femininas, o que pode acentuar desigualdades econômicas e geopolíticas entre países.
Convergência com transformações sociais
Specialistas apontam que o crescimento do movimento está ligado à expansão de redes sociais, à masculinidade tradicional em crise e ao maior acesso de mulheres à educação e ao mercado de trabalho. A autonomia feminina é vista como desafio aos modelos de masculinidade que ainda predominam em certos círculos. O debate, segundo a pesquisadora, envolve questões de poder, igualdade de gênero e migração, indo além de encontros entre pessoas de países diferentes.
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