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“Nunca tinha visto o vestido”, afirma vítima do ateliê My Vintage Dress

Clientes relatam descaso e atrasos a poucas semanas dos casamentos; proprietária alega ter sofrido golpe de funcionária

Montagem em preto e branco mostra vestidos de noiva rendados pendurados em cabides ao lado de uma modelo usando vestido de renda e véu com laço grande, em ensaio editorial de moda bridal.
Centenas de mulheres reclamam do atendimento de ateliê de noivas em São Paulo; algumas dizem que ficaram sem o vestido às vésperas do casamento (Divulgação/My VIntage Dress no Instagram)

Foi no TikTok que Marina Athanasio ficou sabendo que seu vestido de noiva poderia não ser entregue. Ela é uma das centenas de clientes do ateliê de costura My Vintage Dress, que é investigado pela Polícia Civil por estelionato.

Entre segunda-feira (31/08) e terça-feira (1º/09), um grupo de noivas se reuniu na porta da loja, que confecciona vestidos personalizados na Zona Oeste de São Paulo. Segundo o ateliê, mais de 50 pessoas entraram no local, de onde algumas peças foram levadas por clientes que teriam encomendado vestidos que não foram entregues.

“As pessoas pegaram o vestido que era do modelo delas e com o qual iriam casar neste final de semana ou no próximo para tentar ajustar, pelo menos, para garantir alguma coisa. Não fizeram isso porque queriam roubar [a proprietária da loja], pelo contrário. Essas pessoas pagaram com o fim de usar o vestido para se casar”, defende Marina sobre o caso.

Segundo o advogado especialista em direito do consumidor Arthur Rollo, mesmo que as clientes tenham pagado por serviços da empresa, isso não autoriza que elas adentrem o estabelecimento.

“Mesmo que a empresa descumpra suas obrigações, nenhum consumidor pode entrar no ateliê, carregar os vestidos e levar embora. Por mais que a empresa esteja inadimplente em suas obrigações de contrato, isso não justifica o consumidor fazer justiça com as próprias mãos”, afirma o especialista.

No caso, o exercício arbitrário das próprias razões está previsto no artigo 345 do Código Penal. Na ausência de violência, a vítima precisa fazer uma queixa-crime. Porém, Rollo comenta que é um crime de menor potencial ofensivo, com previsão de detenção de 15 dias a um mês.

O que aconteceu

No começo da semana, como relata Marina, mulheres que encomendaram vestidos de noiva começaram a denunciar nas redes sociais os atrasos da My Vintage Dress. Os relatos se repetiam entre elas: a loja não entrava em contato com as clientes e as provas finais eram marcadas em cima da hora.

“Faltando praticamente menos de dois meses para o casamento, a gente [Marina e a prima] nunca nem tinha visto ou experimentado o vestido”, conta. Ela ainda explica que a consultoria e a prova – que eram serviços separados – foram marcadas em um mesmo dia: “não durava 5 minutos”.

Quando soube da situação pelo vídeo de Giulia Vaz, Marina procurou o Instagram da My Vintage e viu um pronunciamento alegando apenas “atraso na produção”. Desde o dia em que descobriu o caso, ela tentou contato por mensagem, ligação e e-mail, mas não obteve nenhum retorno.

O contato de Marina com a loja aconteceu em janeiro de 2026, quando ela e uma prima foram experimentar vestidos de noiva pela primeira vez.

Mesmo tendo pesquisado – ela comenta que a loja tinha cinco estrelas no Google – e visto alguns comentários antigos sobre atrasos e provas prorrogadas, decidiu fechar o contrato em 14 de março.

“Eu acabei fechando por isso, pela possibilidade de fazer uma coisa personalizada para mim, que eu não estava encontrando em outros lugares”, afirma. Ela contratou o serviço para dois vestidos no valor de R$ 12 mil e parcelou a quantia no cartão de crédito, enquanto a prima resolveu dar uma entrada à vista.

Fim de um sonho?

O casamento de Marina está marcado para 14 de novembro e, de certa forma, ela abandonou as esperanças de receber o vestido.

“Eu não tenho esperança nenhuma e nem quero mais, porque eu não quero a insegurança de que talvez eu não vá receber”, desabafa.

Tanto ela quanto a prima pretendem entrar com uma ação na Justiça por danos morais, além de já terem registrado um boletim de ocorrência. Como fez a compra no cartão de crédito, Marina também contestou a cobrança junto ao banco.

Ela reconhece que está em uma posição privilegiada, pois conseguiu encomendar novos vestidos em outro ateliê. Porém, no grupo com quase 300 noivas lesadas pela My Vintage Dress, algumas mulheres resolveram criar uma rede de apoio e empréstimo de trajes.

“É uma coisa muito difícil, porque você tá lidando com os sonhos das pessoas, não é uma roupa qualquer que você compra. Muitas meninas no grupo falam que se sentiram traídas”, diz.

Camila Rossi alega golpe de funcionária

Em depoimento prestado na última sexta-feira (04), a proprietária da My Vintage Dress, Camila Rossi, alegou que foi vítima de um golpe de uma funcionária. Segundo a defesa, a funcionária teria desviado e vendido os vestidos por valores abaixo do esperado.

O advogado Luiz Augusto D’Urso, afirmou que uma funcionária de confiança da loja, que se autointitulava sócia, teria desviado um valor estimado em R$ 1 milhão das contas da empresa. O roubo estaria acontecendo há cerca de um ano e a proprietária teria tomado conhecimento do ocorrido recentemente.

Segundo as informações iniciais da defesa, a funcionária teria realizado compras de Mounjaro e viagens para a Disney no cartão corporativo da My Vintage Dress.

Em resposta à imprensa, a defesa afirmou que Camila está abalada com os acontecimentos recentes, recebendo ameaças de morte e que alguns vestidos foram furtados durante a invasão da loja.

Em nota inicial, a My Vintage Dress afirmou que enfrenta um problema importante na operação de produção, com impacto em parte dos atendimentos e cronogramas em andamento.

A empresa, que tem 14 anos de mercado, disse que, em razão do alto volume de pedidos, decidiu manter temporariamente a loja fechada para novas vendas, com o objetivo de concentrar esforços nas entregas das noivas que já têm pedidos em andamento.

Com colaboração de Thais Manhães

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