O Ministério Público de São Paulo (MPSP), a Receita Federal e outros órgãos deflagraram nesta quinta-feira (24) a Operação Crédito Oculto, terceira fase da Operação Carbono Oculto. A investigação apura suspeitas de lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial relacionadas ao controle de uma usina sucroalcooleira e à posterior compra de uma das maiores distribuidoras de combustíveis do país.
A decisão da 2ª Vara Criminal de Catanduva que autorizou as medidas é um desdobramento da Carbono Oculto e aponta como objeto da investigação uma estrutura que teria sido montada para a aquisição da Tobras Distribuidora de Combustíveis, a Terrana, e para a blindagem de imóveis do grupo investigado. O documento cita Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como “Beto Louco”, e Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”, como supostos líderes da organização investigada.
A decisão também cita a Genial e a Entre Investimentos entre os agentes financeiros envolvidos na estrutura investigada. Segundo o documento, o fundo Radford passou a ser administrado pelo Banco Genial e aplicou recursos em certificados de depósito bancário vinculados a cédulas de crédito emitidas pela Berna e pela Branson, usadas na operação de aquisição da Terrana.
O chamado núcleo financeiro ligado ao banco é descrito como integrado por Humberto Arthur Tupinambá Neto, ex-sócio e diretor da instituição, e pelos irmãos André e Bruno Tupinambá. Conversas extraídas do celular de Paulo Narcélio indicariam que os três participaram das tratativas da operação, enquanto empresas de André e Bruno receberam, cada uma, R$ 469,2 mil da Aster Petróleo.
Já a Entre Investimentos, ligada a Antonio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro”, aparece na investigação como parte de outra camada financeira da estrutura: a empresa teria aportado R$ 20 milhões em uma conta da Usina Itajobi na Credihome, valor posteriormente repassado ao Radford, além de realizar outras movimentações com empresas relacionadas ao grupo investigado. Freixo ficou conhecido nas investigações do Banco Master após fechar um acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República.
R$ 4,7 bilhões em precatórios do Master são cancelados pelo CNJ
Segundo as apurações, uma empresa financeira envolvida na estrutura investigada movimentou cerca de R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025. Para os investigadores, o volume, analisado em conjunto com outras evidências, reforça os indícios de que estruturas financeiras e de investimento foram usadas para ocultar patrimônio e dissimular a origem de recursos.
O MPSP informou que são cumpridos mandados em 29 endereços vinculados a 13 pessoas físicas e 24 pessoas jurídicas. Já a Receita Federal cita 13 pessoas físicas e 19 pessoas jurídicas. Segundo a Receita, as buscas ocorrem em sete estados: São Paulo, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Santa Catarina.

Humberto Tupinambá e Antonio Carlos Freixo são alvos da Operação | Foto: Reprodução / Linkedin
Operação de R$ 370 milhões
Segundo Receita e MPSP, uma das primeiras estruturas investigadas teria sido criada para esconder os verdadeiros proprietários de uma usina sucroalcooleira do interior paulista.
Embora a empresa aparecesse formalmente sob controle de fundos de investimento e companhias aparentemente independentes, os investigadores afirmam ter encontrado indícios de que o controle econômico permanecia com os reais beneficiários.
Um dos negócios analisados envolve aproximadamente R$ 370 milhões em direitos creditórios da usina. Uma empresa ligada a uma sociedade de investimentos teria adquirido esses créditos por meio da transferência de cotas de um fundo de investimento em direitos creditórios.
A análise financeira apontou que uma parcela relevante do dinheiro utilizado na aquisição teria partido de fundos controlados pelo próprio grupo investigado. A suspeita é de um fluxo financeiro circular, que daria aparência legítima à operação e dificultaria a identificação dos beneficiários.
R$ 100 milhões teriam financiado compra de distribuidora
A mesma usina teria sido posteriormente utilizada na estrutura montada para financiar a compra da distribuidora de combustíveis.
Segundo os investigadores, a empresa recebeu R$ 100 milhões enviados pela organização criminosa. O dinheiro teria passado, em poucos minutos, por contas de três empresas, ocultadas por “contas bolsão” mantidas em fintechs, antes de chegar à usina.
Depois, os R$ 100 milhões foram aportados em um fundo de investimento criado para a operação.
A investigação aponta que o fundo comprou um Certificado de Depósito Bancário Vinculado (CDBV) em uma instituição financeira. O dinheiro teria sido utilizado em uma operação associada à emissão de duas cédulas de crédito bancário para empresas que, segundo os investigadores, funcionariam como companhias de fachada.
A decisão judicial detalha que as cédulas emitidas pela Berna Holdings e pela Branson Holdings somavam aproximadamente R$ 160,4 milhões e que os recursos foram utilizados para a compra das cotas do fundo Derby 44 e da empresa que controlava a Terrana.
Fundos também teriam sido usados para esconder imóveis
Parte do dinheiro também teria financiado a aquisição integral de um fundo imobiliário. De acordo com a apuração, imóveis ligados ao grupo já haviam sido transferidos anteriormente para empresas patrimoniais e, depois, para fundos.
Com isso, os bens permaneceriam sob controle econômico dos investigados, mas sem aparecer diretamente em seus patrimônios pessoais.
Para Receita e MPSP, diferentes estruturas cumpriam funções específicas: fintechs movimentavam e fragmentavam recursos; a empresa sucroalcooleira incorporava os valores à atividade econômica formal; fundos apareciam como financiadores; holdings realizavam aquisições; e empresas-veículo aumentavam a distância entre a origem do dinheiro e seus beneficiários.

Receita Federal explica a Operação Crédito Oculto em infográfico | Foto: Receita Federal
Justiça autorizou buscas e bloqueio de bens
A 2ª Vara Criminal de Catanduva autorizou buscas em residências, escritórios, empresas e veículos, além da apreensão de celulares, computadores, documentos e outros materiais relacionados à investigação.
A decisão permite ainda a apreensão de dinheiro em espécie a partir de R$ 1 mil, além de obras de arte, relógios e joias sem comprovação de origem lícita. Também foi autorizado o acesso a dados armazenados nos equipamentos apreendidos, inclusive informações em nuvem, aplicativos de mensagens e e-mails.
O juiz também determinou a indisponibilidade de imóveis e veículos da Terrana e de empresas ligadas à estrutura de aquisição, entre elas Branson Oil, Branson Holdings e Berna Holdings.
A medida alcança ainda cotas e ativos dos fundos Radford, Toulouse, Alsácia, Huelva, Los Angeles 01 — atualmente Lucerna — e Derby 44, atualmente Wels. Foram proibidos resgates, amortizações, transferências de cotas, alienação de ativos e distribuição de resultados, preservada a gestão necessária para conservação do patrimônio.
A Justiça não determinou o bloqueio das contas bancárias e dos ativos financeiros usados na operação cotidiana das empresas, para preservar a continuidade das atividades.
O pedido de indisponibilidade de outros dois fundos, Paris e Gothan, foi negado neste momento porque, segundo a decisão, não havia demonstração suficiente de vínculo concreto com os fatos investigados.
A própria decisão ressalta que as medidas são cautelares e não representam uma conclusão definitiva sobre a responsabilidade dos investigados. O juiz considerou, nesta etapa, que existem indícios suficientes para autorizar o aprofundamento das investigações.
Outro lado
Contatada, a assessoria da Genial Investimentos afirmou que Humberto Tupinambá não faz mais parte da sociedade do banco e disse que colabora com as investigações. Leia nota completa abaixo:
O Banco Genial esclarece que Humberto Tupinambá não integra a Diretoria e não é sócio da instituição desde maio de 2026, quando ocorreu sua destituição.
Todas as informações relacionadas às operações envolvendo o Fundo Radford, inclusive aquelas relacionadas às empresas Berna e Branson Holdings, que estavam em poder da instituição foram fornecidas pela própria Genial ao GAECO-SP. Em relação às operações mencionadas, também foram realizadas as comunicações cabíveis ao COAF, nos termos da legislação e da regulamentação aplicáveis.
No âmbito dessas operações, a Genial atuou dentro das atribuições que lhe competiam, observando os procedimentos, normas e regulamentos aplicáveis, considerando as informações disponíveis à instituição à época.
A partir do conhecimento dos fatos, a instituição adotou medidas adicionais de governança e controle, incluindo a instauração de processo de Inspetoria interna, a revisão da governança das operações de crédito, o afastamento do então diretor dos respectivos processos decisórios e sua posterior destituição. A Genial também contou com o apoio de especialistas externos para a revisão e o aprimoramento de seus processos e controles.
Após a deflagração da Operação Carbono Oculto, a Genial renunciou à administração do Fundo Radford e manteve sua postura de colaboração com as autoridades, fornecendo as informações e os documentos solicitados.
A instituição permanece à disposição das autoridades competentes para colaborar com as investigações e prestar todos os esclarecimentos que se façam necessários.
O Portal Tela entrou em contato com a assessoria da Entre Investimentos. Até o momento da publicação, não houve retorno. O espaço segue aberto.
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