“Não leve a vida como se fosse um trem-bala”, afirmou o cirurgião Silvano Mário Attílio Raia ao comentar, em entrevista, sua visão sobre longevidade. Aos 90 anos, o médico, cuja técnica de transplante hepático intervivos contribuiu para salvar mais de 86 mil pacientes no mundo, defendia que os determinantes de uma vida longa são conhecidos: […]
“Não leve a vida como se fosse um trem-bala”, afirmou o cirurgião Silvano Mário Attílio Raia ao comentar, em entrevista, sua visão sobre longevidade.
Aos 90 anos, o médico, cuja técnica de transplante hepático intervivos contribuiu para salvar mais de 86 mil pacientes no mundo, defendia que os determinantes de uma vida longa são conhecidos: manutenção de hábitos saudáveis, atividade física e mental contínua, controle do estresse e engajamento em atividades com propósito.
“Levar uma vida saudável, manter-se ativo, evitar o aborrecimento e cultivar atividades prazerosas”, resumiu. Para ele, longevidade não se dissocia de qualidade de vida: é preciso “viver uma vida mais vivida”.
A trajetória de Raia teve impacto fundamental na medicina. Pioneiro dos transplantes hepáticos na América Latina, foi responsável por introduzir e consolidar técnicas que ampliaram o acesso ao procedimento e redefiniram seu alcance clínico. Sua atuação contribuiu para transformar o transplante de uma intervenção excepcional em uma alternativa terapêutica viável em larga escala.
Raia morreu ontem (28), aos 95 anos. A informação foi confirmada pela Academia Nacional de Medicina. A causa foram complicações pulmonares.
Com sua morte, a medicina brasileira perde não apenas um pioneiro, mas um dos responsáveis por transformar transplantes de exceção em realidade acessível no país.
Aos 90 anos, médico ainda trabalhava 8 horas por dia e estava à frente de projetos inovadores
Referência internacional, Raia não apenas acompanhou os avanços da cirurgia, mas os antecipou. Formado em 1956 pela Universidade de São Paulo, construiu toda a sua trajetória no Hospital das Clínicas, onde ajudou a erguer uma das bases mais sólidas da medicina de alta complexidade no Brasil.
Foi ali que liderou o primeiro transplante de fígado com doador falecido na América Latina, um marco que, à época, parecia distante da realidade de países fora do eixo central da pesquisa médica. Mais do que realizar o procedimento, ajudou a torná-lo viável em larga escala.
Ponto de virada foi o primeiro transplante de fígado
O ponto de virada viria anos depois. Em 1988, Raia realizou o primeiro transplante de fígado com doador vivo descrito na literatura médica mundial. A técnica rompeu um limite crítico: deixou de depender exclusivamente de órgãos de doadores falecidos. Na prática, isso significou tempo e, em medicina, tempo significa vida. A partir dali, o que era raro começou a se tornar possível.
Do centro cirúrgico à política pública
Sua atuação ultrapassou a sala de cirurgia. Em parceria com o Ministério da Saúde, foi peça-chave na estruturação da política de transplantes no país, contribuindo para consolidar uma rede dentro do Sistema Único de Saúde que hoje é uma das maiores do mundo nesse tipo de procedimento.
Mas, mesmo depois de décadas de carreira, ele ainda pensava no que faltava.
Em entrevista aos 93 anos, ao falar sobre o futuro da área, foi direto: ainda havia uma “demanda reprimida” por órgãos — e pessoas morriam na fila de espera. Um levantamento citado por ele mostrava que sete pacientes por dia morriam por falta de transplante.
A resposta, na visão do médico, estava no futuro.
O olhar sempre adiante
Nos últimos anos, Raia se dedicou aos xenotransplantes, técnica que busca utilizar órgãos de animais geneticamente modificados em humanos. Liderou, inclusive, uma iniciativa da USP que resultou na clonagem do primeiro porco da América Latina com potencial para esse tipo de procedimento.
“Se você tem órgãos à vontade, é possível transplantar antes, com pacientes em melhor condição”, explicou.
Era mais uma tentativa de resolver um limite que, para ele, não deveria ser definitivo.
O homem por trás do cirurgião
Fora do centro cirúrgico, Raia também refletia sobre o tempo, talvez o recurso mais escasso para os pacientes que tratou ao longo da vida. Aos 93 anos, ainda trabalhando oito horas por dia e mantendo rotina ativa, rejeitava a ideia de que viver mais fosse apenas uma questão de prolongar o tempo biológico.
“Não leve a vida como se estivesse em um trem-bala, sem ver a paisagem”, disse.
Para ele, longevidade não era velocidade, era consciência. Defendia atividade física, mente ativa e, sobretudo, uma vida com propósito. “Tentar não se aborrecer” e manter uma atividade prazerosa eram, segundo ele, tão importantes quanto qualquer avanço da medicina.
Ao longo da carreira, publicou mais de 150 trabalhos científicos, orientou pesquisadores e formou gerações de médicos. Mas seu impacto não cabe apenas nos números. A influência que exerceu pode ser medida em cada vida que salvou.
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