O Brasil registrou 42.590 homicídios em 2024, o menor número dos últimos 11 anos. A taxa nacional caiu para 20,1 mortes por 100 mil habitantes, segundo o Atlas da Violência 2026, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Os números revelam que no país a desigualdade social acompanha […]
O Brasil registrou 42.590 homicídios em 2024, o menor número dos últimos 11 anos. A taxa nacional caiu para 20,1 mortes por 100 mil habitantes, segundo o Atlas da Violência 2026, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Os números revelam que no país a desigualdade social acompanha os índices de violência.
Os estados com maiores índices de homicídio continuam concentrados principalmente no Norte e no Nordeste, regiões que também reúnem alguns dos menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do país. Já os menores índices de violência aparecem, em sua maioria, no Sul e Sudeste, justamente onde estão alguns dos maiores indicadores de renda, escolaridade e expectativa de vida.
A disparidade é enorme.
Enquanto São Paulo registrou taxa de apenas 6,6 homicídios por 100 mil habitantes — a menor do Brasil, o Amapá alcançou 45,7 mortes por 100 mil habitantes, mais que o dobro da média nacional.
Norte e Nordeste concentram os maiores índices de homicídio
Em 2024, 18 estados ficaram acima da média nacional de homicídios. Os cinco piores indicadores foram registrados em:
- Amapá – 45,7 homicídios por 100 mil habitantes;
- Bahia – 40,9;
- Pernambuco – 37,3;
- Alagoas – 35,9;
- Ceará – 34,3.
Todos esses estados aparecem abaixo da média nacional em indicadores de desenvolvimento humano, renda e escolaridade.
O contraste ajuda a reforçar algo que especialistas em segurança pública repetem há décadas: violência letal não pode ser explicada apenas por policiamento ou repressão criminal. Atuação ineficiente do Estado, precariedade urbana e falta de oportunidades também fazem parte da equação.
O próprio Atlas afirma que a geografia da violência no Brasil continua “profundamente desigual”, com concentração importante das taxas mais elevadas no Norte e Nordeste.
Amapá virou símbolo da explosão da violência
O caso do Amapá chama atenção porque o estado destoou até mesmo dentro do cenário nacional.
Segundo o Atlas, foi a única unidade da federação a registrar crescimento expressivo tanto da taxa quanto do número absoluto de homicídios ao longo da última década. Entre 2014 e 2024, a taxa subiu 30,2%, enquanto o total de assassinatos cresceu 41,8%.
O estado ocupa a 23 posição entre os 27 estados que tiveram os índices de desenvolvimento urbanos analisados. Os municípios que o compõem enfrentam problemas históricos ligados à pobreza,baixa presença institucional e expansão de facções criminosas na região amazônica.
Mesmo após uma queda de 30% entre 2023 e 2024, o Amapá permaneceu como o estado mais violento do Brasil.
São Paulo e Santa Catarina aparecem no extremo oposto
Na outra ponta do ranking estão estados com alguns dos maiores IDHs do Brasil.
São Paulo teve novamente a menor taxa de homicídios do país: 6,6 mortes por 100 mil habitantes.
Logo atrás aparecem Santa Catarina, com taxa de 8,1, e o Distrito Federal, com 10,3.
Essas unidades da federação também figuram entre os maiores IDHs brasileiros, com melhores indicadores de renda, escolaridade e infraestrutura urbana.
Isso não significa que IDH alto automaticamente elimina violência, mas a comparação histórica mostra que estados com maior desenvolvimento humano tendem a registrar taxas menores de homicídio ao longo do tempo.
Ceará e Maranhão mostram piora recente
Embora o Brasil tenha consolidado tendência nacional de queda desde 2018, alguns estados seguem na direção oposta.
O Ceará registrou aumento de 5,2% na taxa de homicídios entre 2023 e 2024. No recorte de cinco anos, a alta chega a 28%.
Já o Maranhão apresentou crescimento de 7,6% apenas no último ano e aumento de 25,9% desde 2019.
Os dados reforçam que a redução da violência no Brasil acontece de maneira heterogênea. Enquanto alguns estados conseguiram consolidar quedas históricas, outros convivem com avanço das facções, fragilidade institucional e dificuldade de controle territorial.
A queda pode ser menor do que parece
O Atlas também faz um alerta importante: os números oficiais podem estar subestimando a violência real no país.
Isso porque houve aumento expressivo das chamadas Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI), casos em que o Estado não conseguiu identificar corretamente a causa básica da morte.
Usando metodologia baseada em aprendizado de máquina, os pesquisadores estimaram que o Brasil pode ter registrado, na verdade, 49.673 homicídios em 2024, e não 42.590. Nesse cenário, a taxa nacional subiria de 20,1 para 23,4 homicídios por 100 mil habitantes.
Na prática, isso muda completamente a leitura da queda da violência.
Enquanto os dados oficiais indicam redução de 7,4% na taxa de homicídios, os números estimados apontam uma queda praticamente estável, de apenas 0,4%.
E talvez esse seja o retrato mais preciso do Brasil atual: um país que até consegue reduzir homicídios em parte do território, mas que continua profundamente desigual, tanto no desenvolvimento quanto nas chances de morrer de forma violenta.
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