A disputa pela presidência do Perú continua nesta segunda (8). Diante de uma realidade de incerteza política, essa disputa presidencial coloca frente a frente duas figuras que representam projetos radicalmente diferentes de poder. De um lado está Keiko Fujimori, principal líder da direita peruana e herdeira do movimento criado por seu pai, o ex-presidente Alberto […]
A disputa pela presidência do Perú continua nesta segunda (8). Diante de uma realidade de incerteza política, essa disputa presidencial coloca frente a frente duas figuras que representam projetos radicalmente diferentes de poder.
De um lado está Keiko Fujimori, principal líder da direita peruana e herdeira do movimento criado por seu pai, o ex-presidente Alberto Fujimori. Do outro, Roberto Sánchez, ex-ministro do governo Pedro Castillo e representante de setores da esquerda rural e andina.
Mais do que uma simples eleição, o pleito é visto como um novo capítulo da profunda polarização que marca o Peru há décadas.
A diferença entre os dois candidatos vem diminuindo nas pesquisas, enquanto cerca de um quarto do eleitorado ainda se declara indeciso. O cenário ajuda a explicar por que analistas consideram esta uma das eleições mais abertas e imprevisíveis da história recente do país.
Keiko Fujimori: a herdeira do sobrenome que divide o Peru
Aos 51 anos, Keiko Fujimori disputa a Presidência pela quarta vez.
Filha do ex-presidente Alberto Fujimori, ela assumiu protagonismo político ainda jovem, quando se tornou primeira-dama do Peru aos 19 anos após a separação dos pais.
Desde então, construiu uma das carreiras mais duradouras da política peruana. Foi deputada, liderou o partido Fuerza Popular e chegou três vezes ao segundo turno presidencial.
Keiko disputou a eleição com promessa de restaurar a ordem reduzir a criminalidade no Peru
Perdeu em 2011 para Ollanta Humala, em 2016 para Pedro Pablo Kuczynski e em 2021 para Pedro Castillo.
Sua principal bandeira nesta campanha é a promessa de restaurar a ordem diante do crescimento da criminalidade e da instabilidade política.
Keiko aposta no legado de seu pai, que continua sendo lembrado por muitos peruanos como o presidente que derrotou o grupo terrorista Sendero Luminoso e estabilizou a economia do país nos anos 1990.
Ao mesmo tempo, o sobrenome Fujimori continua despertando forte rejeição entre eleitores que associam aquele período ao autoritarismo, à corrupção e às violações de direitos humanos.
Essa divisão explica por que Keiko consegue chegar repetidamente ao segundo turno, mas encontra enorme dificuldade para ampliar sua base eleitoral.
Roberto Sánchez cresceu entre vulneráveis, sobretudo, no interior do país
O opositor de Fujimori representa uma trajetória muito diferente.
Psicólogo de formação e ex-ministro do Comércio Exterior e Turismo, ele participou do governo de Pedro Castillo, presidente destituído após tentar dissolver o Congresso em 2022.
Enquanto muitos integrantes daquele governo desapareceram da cena política, Sánchez conseguiu preservar sua imagem.
Durante a campanha, apresentou-se como representante dos setores rurais, especialmente do sul andino do país, região que continua demonstrando forte ressentimento contra as elites políticas concentradas em Lima.
Sua candidatura cresceu justamente entre eleitores que se sentem excluídos do desenvolvimento econômico e que enxergam na capital peruana uma estrutura de poder distante de suas necessidades.
Embora reivindique parte do legado político de Castillo, Sánchez adotou um discurso mais moderado e conciliador, o que lhe permitiu ampliar sua base eleitoral nos meses finais da campanha.
Por que a disputa está tão apertada?
A eleição reúne praticamente todos os ingredientes que costumam produzir resultados imprevisíveis.
O primeiro deles é o elevado número de indecisos. Pesquisas apontam que cerca de 25% dos eleitores ainda não haviam definido o voto nos dias que antecederam a eleição. Em uma disputa equilibrada, esse contingente pode decidir sozinho o resultado.
O segundo fator é a forte rejeição aos dois candidatos.
Keiko enfrenta o chamado “antifujimorismo”, movimento que reúne eleitores de diferentes correntes ideológicas unidos pela oposição ao legado de Alberto Fujimori.
Já Sánchez carrega o peso de sua ligação com Pedro Castillo, cujo governo é lembrado por muitos peruanos como um período de improvisação, instabilidade e denúncias de corrupção.
Há ainda uma divisão geográfica importante.
Keiko é mais forte em Lima e nos grandes centros urbanos. Sánchez tem vantagem no interior, especialmente nas regiões rurais e no sul do país.
Por isso, a participação eleitoral pode ser decisiva. Uma maior mobilização urbana tende a favorecer Keiko. Uma votação mais intensa nas áreas rurais pode beneficiar Sánchez.
O maior desafio pode começar depois da eleição
Independentemente de quem vencer, especialistas alertam que o problema mais difícil talvez não seja ganhar a eleição, mas governar.
O Peru terá seu nono presidente em apenas uma década.
Nos últimos anos, presidentes foram destituídos, renunciaram ou enfrentaram sucessivas crises institucionais. O Congresso tornou-se um dos atores mais poderosos da política nacional, frequentemente entrando em choque com o Executivo.
A fragmentação partidária e a ausência de maiorias sólidas dificultam a construção de governos estáveis.
Por isso, a principal dúvida dos peruanos não é apenas quem ocupará o Palácio do Governo nos próximos anos.
A pergunta que domina o debate político é outra: qualquer que seja o vencedor, ele conseguirá governar um país que muitos analistas já descrevem como praticamente ingovernável?
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