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35 anos de fios crespos no Brasil: mudanças e perspectivas

Da domação ao natural: em trinta e cinco anos, o haircare brasileiro se transforma, fortalecendo identidade e abrindo espaço para texturas diversas

A virada do cabelo: uma perspectiva dos últimos 35 anos dos fios crespos no Brasil — Foto: Wallace Domingues
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  • Ao longo de trinta e cinco anos, o cabelo crespo foi visto como algo a ser domado, com químicas e padrões excludentes, e hoje o natural se impõe como valor.
  • No início do século XXI houve a virada: a transição capilar ganhou força e o alisamento passou a ser questionado, com a valorização de diferentes texturas.
  • A internet acelerou a mudança: Orkut, blogs e depois YouTube ajudaram mulheres a compartilhar rotinas, técnicas de finalização e relatos de transição.
  • O mercado acompanhou: houve escassez de produtos para textura natural, impulsionando marcas especializadas como Salon Line; as rotinas passaram a ser preventivas e terapêuticas, com mais de sete produtos usados por consumidoras.
  • Na década de 2020, surgiu a narrativa de retorno ao alisamento para algumas mulheres, enquanto o setor se abre para múltiplas possibilidades de cuidado, personalização e saúde capilar.

A virada do cabelo no Brasil, ao longo de 35 anos, mostra uma mudança de domínio: de padrões que tentavam domar fios crespos a uma valorização do natural. O giro envolve indústria, mídia, influenciadoras e consumidoras, que passaram a priorizar cuidado, identidade e liberdade de escolha.

Tudo começou com a hegemonia do alisamento e com a ideia de que fios lisos eram o padrão de beleza. Nos anos 1990, o mercado de cabelo negro nos EUA já era multibilionário, em grande parte com produtos que alteravam a textura natural. No Brasil, esse movimento ganhou força nas décadas seguintes.

No âmbito acadêmico, pesquisas indicam que após a abolição houve promoção de estereótipos ligados ao cabelo crespo. Ao longo do início dos anos 2000, protagonistas da televisão exibiam cabelos lisos ou controlados, sinalizando uma visão de beleza ainda estreita.

A virada ocorreu com o renascimento do cabelo natural, que passou a simbolizar resistência e identidade. Entre 2006 e 2010, cresceu a rejeição a alisantes químicos e o respeito às texturas naturais ganhou terreno, impulsionado pela internet.

Comunidades online — Orkut, blogs e fóruns de cuidado capilar — aceleraram a troca de experiências sobre transição, hidratação e definição de cachos. O ciclo de compartilhamento abriu espaço para redes de apoio entre mulheres em transição capilar, fortalecendo o movimento.

Em 2009, o mercado brasileiro passou a incorporar cremes de tratamento na rotina de cuidado, ampliando o debate sobre diversidade de texturas. A troca de relatos reforçou a ideia de que o cuidado capilar pode ser preventivo e terapêutico.

O YouTube ganhou relevância a partir de 2010, com tutoriais de finalização, hidratação profunda e transição. O vocabulário do tema, como big chop e curvatura dos fios, tornou-se comum, ajudando a popularizar a prática entre novas consumidoras.

A transição ganhou visibilidade entre influenciadoras que passaram a documentar suas rotinas. Histórias de superação mostraram que é possível conviver com duas texturas e manter a autoestima, sem depender do padrão externo.

No mercado, marcas especializadas se firmaram. A Salon Line, criada em 1995, tornou-se referência ao focar em cabelos cacheados, crespos e crespíssimos, ampliando a oferta de produtos para diferentes texturas.

Hoje, a indústria de beleza reconhece a diversidade de texturas como valor estrutural. Executivos apontam que consumidoras brasileiras adotam uma rotina com múltiplos produtos, cada um com função específica para fios variados.

Para o futuro, especialistas veem a continuidade da pluralidade: o liso, o cacheado, o crespo e variações serão partes de uma mesma cartilha de cuidado. Personalização e tecnologia devem abrir caminho para novas soluções de saúde capilar.

A narrativa das três décadas não é apenas sobre estilo. Trata-se de uma evolução cultural que transformou práticas, mercados e identidades, abrindo espaço para que cada pessoa escolha como quer ter o cabelo.

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