Em meio à alta das canetas para emagrecer, que prometem perda de peso rápida, pesquisadores da Stanford Medicine descobriram uma molécula natural do corpo humano que pode abrir um novo caminho para o tratamento da obesidade. O nome dela é BRP, sigla para BRINP2-related peptide, que, em testes com camundongos e mini porcos, reduziu o […]
Em meio à alta das canetas para emagrecer, que prometem perda de peso rápida, pesquisadores da Stanford Medicine descobriram uma molécula natural do corpo humano que pode abrir um novo caminho para o tratamento da obesidade.
O nome dela é BRP, sigla para BRINP2-related peptide, que, em testes com camundongos e mini porcos, reduziu o apetite, diminuiu a ingestão de alimentos e levou à perda de peso.
A descoberta chamou atenção porque o efeito lembra, em parte, o dos remédios à base de semaglutida, como o Ozempic. O BRP ainda está em fase inicial de pesquisa e não pode ser considerado um medicamento pronto, mas já causou interesse pelo potencial que apresenta.
O que foi descoberto até agora
O que os cientistas encontraram foi um peptídeo, uma pequena cadeia de aminoácidos, com apenas 12 unidades, derivado de uma proteína maior chamada BRINP2.
Nos testes feitos até agora, o BRP reduziu o apetite em animais e mostrou efeito contra a obesidade. Em camundongos obesos tratados por 14 dias, a perda média foi de cerca de 3 gramas, quase toda de gordura, enquanto o grupo de controle ganhou cerca de 3 gramas no mesmo período.
Os animais também apresentaram melhora na tolerância à glicose e à insulina, dois pontos importantes quando o assunto é metabolismo.
Os resultados chamaram ainda mais atenção porque o BRP não parece agir da mesma forma que os remédios mais conhecidos hoje. Trata-se de um peptídeo anti obesidade que age fora da rota das incretinas, grupo do qual faz parte o GLP-1.
O BRP age de forma independente da leptina, do receptor de GLP-1 e do receptor MC4R, todos já bastante conhecidos por seu papel no controle da fome e do peso. Isso significa que a molécula pode abrir uma nova rota de tratamento, e não apenas reproduzir o que já existe.
Outro ponto que reforçou a descoberta foi a tolerância observada nos animais. Segundo a Stanford, o BRP não provocou sinais de náusea, aversão alimentar, constipação, perda muscular significativa, alteração no consumo de água, mudança nos movimentos nem comportamento semelhante à ansiedade nos testes realizados.
Ainda assim, isso não significa que a molécula seja livre de efeitos colaterais, já que ela está em fase inicial de pesquisa e, nos modelos animais usados até agora, esses problemas não apareceram da mesma forma que com a semaglutida. O BRP ainda não foi testado em humanos.
Os pesquisadores ainda tentam identificar exatamente a qual receptor da superfície celular essa molécula se liga e também buscam formas de prolongar seu efeito no organismo, algo essencial para uma futura aplicação prática.
Sistema de algoritmo foi utilizado para encontrar a molécula
Outro ponto interessante da pesquisa foi a forma como a molécula foi encontrada, já que os pesquisadores criaram um algoritmo chamado Peptide Predictor para buscar novos peptídeos escondidos em proteínas humanas.
Em vez de testar tudo manualmente, o sistema analisou os 20 mil genes que codificam proteínas no corpo humano e procurou trechos em que essas proteínas poderiam ser “cortadas” em fragmentos menores com potencial biológico.
Depois, a equipe concentrou a análise nos genes que produzem proteínas secretadas para fora da célula, uma característica importante dos hormônios.
Esse processo reduziu a busca para 373 pró-hormônios e, a partir daí, o algoritmo previu a existência de 2.683 peptídeos únicos.
Os cientistas então selecionaram 100 desses peptídeos para testes em células nervosas cultivadas em laboratório.
O GLP-1, hormônio já conhecido e ligado à semaglutida, aumentou a atividade dessas células em cerca de três vezes. O BRP foi além e elevou essa atividade em cerca de dez vezes, o que levou os pesquisadores a olhar para a molécula com mais atenção.
Depois disso, o BRP passou por testes em animais, como camundongos magros e mini porcos. Nesses experimentos, uma injeção intramuscular aplicada antes da alimentação reduziu a ingestão de comida em até 50% na hora seguinte.
Os mini porcos são um modelo importante porque têm metabolismo e padrão alimentar mais próximos dos humanos do que os camundongos.
O que é o Ozempic e como ele funciona
Ozempic é o nome comercial da semaglutida, um análogo do GLP-1 com 94% de semelhança com o hormônio humano, que atua como agonista do receptor de GLP-1. Na prática, ele imita a ação de um hormônio do próprio corpo ligado ao controle da glicose e do apetite.
Esse mecanismo ajuda o organismo a liberar insulina quando a glicose está alta, reduz a secreção de glucagon e ainda atrasa o esvaziamento do estômago após as refeições. Com isso, a sensação de saciedade aumenta e a pessoa tende a comer menos.
A semelhança entre as canetas para emagrecer e a nova descoberta, porém, tem limite. A própria Stanford afirma que o BRP parece agir por uma via diferente, embora apresente um efeito semelhante em um ponto específico: a redução da fome e do peso.
Enquanto a semaglutida atua em receptores no cérebro, no intestino, no pâncreas e em outros tecidos, o BRP parece agir de forma mais concentrada no hipotálamo, região do cérebro ligada ao apetite e ao metabolismo.
Essa é a principal razão para a descoberta ser vista como promissora, já que a expectativa é de que uma ação mais direcionada possa, no futuro, manter o efeito sobre o peso com menos impacto em outras partes do corpo.
Entre na conversa da comunidade