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É possível aprender enquanto dormimos? A ciência começa a dizer que sim

Novas pesquisas sugerem que seres humanos conseguem resolver problemas e até se comunicar durante os sonhos.

Ciência começa a estabelecer que pessoas dormindo são plenamente capazes de aprender. Imagem: FREEPIK.

Muito antes de a inteligência artificial prometer produtividade sem esforço, já existia outro sonho antigo da humanidade: aprender dormindo. E, por décadas, isso pareceu apenas charlatanismo científico, uma fantasia digna de ficção distópica. Mas uma nova geração de pesquisadores voltou a investigar o tema, e os resultados começam a surpreender até os cientistas mais céticos. […]

Muito antes de a inteligência artificial prometer produtividade sem esforço, já existia outro sonho antigo da humanidade: aprender dormindo. E, por décadas, isso pareceu apenas charlatanismo científico, uma fantasia digna de ficção distópica. Mas uma nova geração de pesquisadores voltou a investigar o tema, e os resultados começam a surpreender até os cientistas mais céticos.

A ideia não é nova. Em 1932, o inventor Alois Benjamin Saliger criou o “Psycho-phone”, um aparelho que reproduzia mensagens enquanto a pessoa dormia. As gravações prometiam prosperidade financeira, magnetismo pessoal e até aumento do poder de sedução. Em um dos áudios, Saliger dizia: “O dinheiro me quer e vem até mim.” O dispositivo custava o equivalente a mais de US$ 4 mil (mais de 20 mil reais) em valores atuais, e havia clientes que juravam ter emagrecido, enriquecido ou até concebido um “bebê Psycho-phone”.

Durante décadas, experiências desse tipo foram tratadas como pseudociência. Muitos estudos antigos falharam porque os pesquisadores sequer conseguiam comprovar se os participantes estavam realmente dormindo. Sem exames cerebrais modernos, boa parte da chamada “aprendizagem durante o sono” provavelmente aconteceu enquanto as pessoas ainda estavam acordadas. Em 1954, cientistas concluíram que praticamente toda a área havia sido construída sobre resultados frágeis e metodologias falhas.

Mas a história mudou.

Cérebro não aprende conceitos complexos, mas fortalece memória e até encontra soluções criativas enquanto dormimos

Nos últimos anos, avanços em neurociência e monitoramento cerebral permitiram que pesquisadores acompanhassem, em tempo real, o que acontece dentro do cérebro adormecido. E os experimentos começaram a revelar algo intrigante: embora não seja possível aprender conteúdos complexos do zero enquanto dormimos, o cérebro parece conseguir fortalecer memórias, treinar habilidades e até encontrar soluções criativas durante os sonhos.

Um dos casos mais impressionantes aconteceu no laboratório da Northwestern University, nos Estados Unidos. Pesquisadores entregaram desafios matemáticos e espaciais a pessoas que praticam sonhos lúcidos — quando o indivíduo percebe que está sonhando enquanto ainda dorme. Uma participante sonhou que ela e a irmã flutuavam em balões enquanto postes surgiam no ar. No dia seguinte, percebeu que o sonho continha a solução de um quebra-cabeça geométrico dado antes de dormir: quatro árvores precisavam formar uma pirâmide, e não um quadrado. Ela resolveu o problema após acordar.

De acordo com a revista,The Conversation, os cientistas acreditam que o cérebro continua reorganizando informações durante o sono. Desse modo, conecta memórias e simula cenários de maneira altamente criativa. É como se a mente continuasse “trabalhando nos bastidores” mesmo quando o corpo descansa.

Outro avanço importante veio de pesquisas sobre algo chamado “reativação direcionada da memória”. Em um experimento suíço, participantes memorizaram posições em uma tela enquanto sentiam cheiro de rosas. Mais tarde, já dormindo, foram novamente expostos ao mesmo aroma. No dia seguinte, lembravam melhor das informações aprendidas anteriormente, mesmo sem recordar do cheiro durante a noite.

Experimentos semelhantes também foram feitos com sons. Pessoas associavam objetos a determinados ruídos enquanto estavam acordadas. Depois, os sons eram reproduzidos discretamente durante o sono profundo. Resultado: os participantes apresentavam melhora significativa na memória relacionada àqueles objetos específicos.

Talvez ainda mais surpreendente seja o impacto do sono sobre comportamentos e vícios. Em um estudo publicado pelo Instituto Weizmann, em Israel, fumantes foram expostos, durante o sono, a uma combinação do cheiro de cigarro com odor de peixe podre. Nos dias seguintes, reduziram o consumo de cigarros em mais de 30%. E o mais curioso: o efeito foi maior do que quando o mesmo experimento era feito com os participantes acordados.

Os pesquisadores ainda estão longe de afirmar que será possível “baixar” idiomas no cérebro enquanto dormimos, como em filmes de ficção científica. Mas as descobertas começam a indicar que o sono talvez seja muito mais ativo, inteligente e poderoso do que imaginávamos.

Dormir, afinal, pode não ser apenas descansar. Pode ser também continuar aprendendo, em silêncio.

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