- Fernanda R., 29 anos, assessora de assuntos internacionais, deletou apps há dois anos, voltou a usar e enfrentou várias conversas simultâneas, checagens compulsivas e pressão por ser interessante, sentindo-se sobrecarregada e mais solitária.
- Pesquisas mostram um padrão de burnout em usuários de aplicativos de namoro, com exaustão emocional, cinismo (desconexão) e sensação de ineficácia.
- Estudos indicam que quem usa apps tem maior risco de depressão, ansiedade e solidão, principalmente entre pessoas que já tinham dificuldades de saúde mental.
- A indústria afirma buscar conexões reais e melhorias no uso, mas especialistas apontam que a gamificação e a impulsividade das plataformas podem ampliar o desconforto.
- Four caminhos para romper o ciclo: não tornar os apps a única forma de conhecer pessoas; usar com intenção; contar com amizades e redes de apoio; saber quando é hora de parar ou dar um intervalo.
Fernanda R., 29, retraiu-se de apps de relacionamento há dois anos, mas reconsiderou após amigos encontrarem parceiros online. Ao rebaixar as expectativas, acabou entrando novamente no ciclo: várias conversas simultâneas, checagem constante do celular e a pressão de ser interessante. O resultado foi sensação de sobrecarga e isolamento.
Especialistas chamam esse fenômeno de burnout de aplicativos de namoro. Pesquisas indicam um padrão comum entre usuários: cansaço emocional, cinismo e sensação de que nada funciona, o que pode piorar com o tempo. Estudos associam o uso das plataformas a maior incidência de depressão, ansiedade e solidão.
Liesel Sharabi, diretora do Relationships and Technology Lab, aponta que os objetivos dos apps nem sempre coincidem com as expectativas dos usuários. Quando há casos de sucesso, o uso tende a diminuir; na prática, as pessoas entram e saem de forma contínua.
Se você está voltando a usar apps neste verão, é possível estar preso nesse ciclo. Um estudo de 2024 acompanhou centenas de usuários por três meses e mostrou que o burnout apareceu em diferentes aspectos, sobretudo entre quem já enfrentava dificuldades prévias.
The blame game
A indústria de dating apps nega amplamente que seus usuários sofram burnout. Em resposta, a promessa é facilitar conexões significativas e melhorar a experiência com base em feedback de usuários. No entanto, especialistas ressaltam a natureza da gamificação: recompensas rápidas e uso repetido aumentam o desgaste.
Analistas destacam ainda que o arranjo de rolar o feed e deslizar entre perfis funciona como estímulo intermitente, parecido com máquinas de caça-níqueis. O efeito é a elevação momentânea ao receber um like, seguido de decepção quando o encontro não acontece ou não encanta.
Entre relatos, a sensação é comum: o recebimento de uma notificação de curtida pode soar como ameaça, segundo um usuário entrevistado. Com o tempo, o interesse desaparece e o processo passa a parecer mecânico.
Quatro caminhos para sair do burnout
Para evitar ou reduzir o burnout, especialistas recomendam medidas simples e práticas.
1) Não usar os apps como única forma de socialização. Participar de grupos, pedir apresentações a amigos e buscar encontros presenciais aliviam a pressão gerada pelo uso exclusivo das plataformas.
2) Utilizar as opções com foco: definir tempo limitado de uso e evitar sessões longas. Pausar ao notar cansaço ajuda a evitar esgotamento extremo.
3) Buscar apoio social. Conversar com amigos e familiares ajuda a manter a saúde mental e a evitar ciclos de solidão.
4) Saber quando interromper. Se o uso dos apps mina a esperança de encontrar alguém, pode ser sinal de pausa total.
No momento, alguns usuários conseguem redirecionar o contato social para outras frentes. Madeleine D., que preferiu permanecer anônima, decidiu manter-se off por tempo indeterminado, tentando resgatar uma abordagem mais leve para conhecer pessoas.
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