Em um esforço de medir os efeitos negativos do crédito no bem-estar, o Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV criou o Indicador de Desconforto de Crédito (IDC). O objetivo é traduzir a sensação de endividamento em números a partir de 2014.
Segundo os pesquisadores do FGVcemif, o IDC mostra que o mal-estar com dívidas em atraso atingiu o nível mais alto já registrado. O indicador passou de 0,25 em 2014 para 0,94 no último levantamento, com variações acentuadas ao longo dos anos.
Os criadores do IDC destacam que o índice incorpora inadimplência e qualidade de crédito, além do comprometimento de renda. O grupo é liderado por Lauro Gonzalez, com participação de Rafael Schiozer e Matheus L. Carrijo.
Como o IDC é calculado
A metodologia combina três componentes: o nível de comprometimento de renda, a taxa de inadimplência acima de 90 dias e um índice de qualidade de crédito, centrado em crédito de consumo mais oneroso.
Essa última métrica diferencia crédito mais caro, como cartão de crédito não consignado e cheque especial, do crédito imobiliário. A ideia é captar impactos do endividamento na qualidade do crédito e no bem-estar da população.
Na última década, o crédito para pessoas físicas cresceu, puxado por crédito não imobiliário, enquanto o crédito corporativo recuou. Pesquisadores afirmam que mudanças regulatórias, tecnologia e programas de renda influenciaram esse cenário.
Contexto e interpretação
Os autores observam que programas como o Desenrola podem trazer alívio temporário ao IDC. Sem medidas estruturais, o superendividamento tende a persistir, alertam os pesquisadores.
O IDC também é visto como ferramenta para entender por que indicadores macroeconômicos positivos não se traduzem necessariamente em avaliação favorável do governo. O tema envolve, ainda, o debate sobre futuros programas de renegociação de dívidas.
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