A crise no petróleo impulsiona a busca por biocombustíveis. Conflitos no Oriente Médio e o bloqueio do Estreito de Ormuz reativam temores de desabastecimento, elevam preços de energia e colocam etanol, biodiesel e SAF no centro da pauta energética. O Brasil é apresentado como protagonista da transição baseada em biomassa.
Estudos da FGV indicam que a bioenergia pode acrescentar até 403,2 bilhões de reais ao PIB entre 2030 e 2035, gerando 225,5 mil empregos e evitando desmatamento em aproximadamente 480 mil hectares, principalmente no Cerrado e na Amazônia. A projeção envolve 64 bilhões de litros de combustíveis renováveis.
Cícero Lima, pesquisador da FGV Agro, ressalta que os impactos vão além do setor de energia. O retorno estimado é de 62 reais para cada 1 investido, segundo o estudo, destacando o papel da bioenergia como vetor de crescimento econômico.
Disputa desigual
O mercado mundial vive uma nova configuração de segurança energética. O CEO do Instituto Equilíbrio, Eduardo Bastos, afirma que guerras atuais mudaram a lógica da transição e ampliaram o peso dos biocombustíveis. A depender do preço do petróleo, acelerar a transição pode valer a pena.
Bastos comenta que a discussão envolve soberania energética, não apenas meio ambiente. Em períodos de conflito, há risco de desabastecimento de gás, fertilizantes e alimentos, ampliando a relevância dos biocombustíveis para o Brasil.
Food vs. fuel
Especialistas destacam que, no Brasil, a relação entre produção de alimentos e biocombustíveis não é conflitante. Bastos aponta que a maior produtividade agrícola e o uso de subprodutos ajudam a manter a oferta de proteína animal e a inflação de alimentos sob controle.
O conceito proposto é *fuel for food*: ao ampliar etanol e biodiesel, o País também eleva a oferta de derivados para alimentação animal, o que, segundo os especialistas, não compromete a produção de alimentos no Brasil.
Eletrificação
A discussão sobre descarbonização envolve rotas tecnológicas distintas. Enquanto Europa, China e EUA priorizam eletrificação, o Brasil aposta em vantagens comparativas em biocombustíveis.
Gillio, professor do Insper, diz que a eletrificação favorece países sem vantagem agrícola. O Brasil, segundo ele, pode importar soluções desenhadas para outras matrizes energéticas, o que não se aplica aos biocombustíveis.
Mesmo com avanço dos EVs, a demanda por combustíveis líquidos persiste em aviação e transporte marítimo. O SAF aparece como aposta global para biocombustíveis, embora tenha custo elevado em relação ao fósil.
Rastreabilidade
Além de reduzir emissões, o avanço da bioenergia exige rastreabilidade e não desmatamento para atender mercados internacionais. A projeção aponta queda de até 27,6 milhões de toneladas de CO2 equivalente ao substituir combustíveis fósseis.
No etanol de cana, as reduções de emissões variam entre 70% e 90% ante a gasolina, segundo o estudo. A expansão depende de estabilidade regulatória, crédito acessível e previsibilidade para investimentos.
O Brasil, diante de guerras, pressão climática e reorganização das cadeias globais, busca transformar a produção agrícola em influência geopolítica. Os especialistas veem os biocombustíveis como liderança da próxima fase econômica nacional.
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