O Ibovespa chegou a quase 200 mil pontos no início de abril, impulsionado pela entrada maciça de capital estrangeiro, otimismo com a economia global e expectativa de cortes de juros no Brasil e nos EUA. A bolsa alcançou 199.354 pontos, mas não rompeu a barreira simbólica.
Poucas semanas depois, o cenário mudou. Em maio, investidores estrangeiros retiraram cerca de R$ 8 bilhões da B3, revertendo parte do fluxo positivo do começo do ano. Em janeiro, a entrada líquida de capital externo ficou em R$ 26,3 bilhões, um dos maiores volumes recentes.
Fluxo estrangeiro e juros
Analistas dizem que vários pilares da alta perderam força quase ao mesmo tempo. O mercado projetava cortes agressivos de juros, dólar fraco e demanda ainda baixa de emergentes, o que animava investidores estrangeiros.
Marco Brill, MAG Investimentos, afirma que o cenário mudou: com menos perspectiva de cortes, o apetite por ativos brasileiros diminuiu e o posicionamento de investidores já era menos agressivo. O Ibovespa recuou da aproximação dos 200 mil pontos.
Hugo Queiroz, da L4 Capital, complementa que houve fluxo global estratégico, buscando ganhos rápidos com base nas diferenças de juros e câmbio entre economias desenvolvidas e emergentes. O cenário atual privilegia inflação e geopolítica.
Mudança de cenário global
A escalada do conflito Israel e Irã e a tensão no Estreito de Hormuz alteraram as expectativas sobre petróleo, inflação e juros globais. Segundo Brill, a percepção de menores cortes de juros passou a predominar.
A curva de juros e as expectativas de cortes recuaram para níveis mais restritivos. O mercado passou a reagir menos ao crescimento e mais a fatores como petróleo, inflação e geopolítica, impactando fluxos para emergentes.
Tecnologia domina Largo e Brasil perde espaço
Com a elevação da atratividade de tecnologia e IA, capital internacional voltou a buscar bolsas tecnológicas, como EUA e Coreia do Sul. Brill aponta que o otimismo sobre tech reduziu o fluxo para mercados com maior participação de commodities.
Mercados de emergentes, incluindo o Brasil, sofreram com a mudança de foco para setores de maior peso tecnológico. O recuo vilou papéis de bancos e da chamada velha economia, que compõem boa parte do Ibovespa.
Panorama doméstico e perspectivas
Mesmo com incertezas internas, o principal peso recai sobre o cenário fiscal e as eleições de 2026. Pesquisadores destacam que sinais de ajuste fiscal e reformas pró-mercado tendem a melhorar a percepção sobre ativos brasileiros.
Brill acrescenta que dúvidas sobre o próximo presidente relativizam o otimismo, refletindo no custo da dívida e na volatilidade dos ativos. O fluxo externo permanece volátil diante de eventos externos e domésticos.
O que esperar daqui
O saldo de capital estrangeiro em 2026 ainda é positivo, embora tenha diminuído. Aproximação entre cenário externo e interno deve ditar a direção do Ibovespa, com possibilidade de variações até atingir ou não novas máximas.
Especialistas ressaltam que o Ibovespa pode, mais adiante, tocar os 200 mil pontos, mas o ambiente externo continuará influente. O carry trade permanece atrativo, desde que haja diferencial de juros robusto.
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