O mercado europeu de computação em nuvem pode passar por mudanças profundas. A Comissão Europeia apresentou, em 3 de junho de 2026, o projeto CADA, parte do Pacote de Soberania Tecnológica, para infraestrutura digital pública e privada.
Segundo a proposta, existem quatro níveis de soberania. Nos níveis 3 e 4, setores como saúde, finanças, energia e administração pública exigem controle e propriedade europeus, com imunidade ao US CLOUD Act. O objetivo é restringir o acesso a dados sensíveis.
Atualmente, gigantes como AWS, Microsoft Azure e Google Cloud representam cerca de 70% do mercado europeu. O CADA cria barreiras para contratos públicos valiosos, levando a nuvens soberanas com centros de dados na Europa, equipes locais e governança regional.
Essas nuvens soberanas cobrariam entre 20% e 30% a mais, teriam menos funcionalidades e evoluiriam mais lentamente. Hospitais, universidades e empresas acabariam pagando mais por um serviço menos adequado ao que o mercado global oferece.
Ao excluir grandes players globais, a proposta não cria um competidor de alto nível para IA e aprendizado de máquina. O resultado seria contratos públicos para soluções de segunda linha, com recursos subutilizados por contribuintes.
O CADA surge em meio a tensões entre EUA e UE. Regulamentos como DMA e DSA, aprovados em 2022, impõem obrigações a plataformas com grande poder de mercado. Empresas americanas são as mais impactadas.
Nenhuma empresa europeia tem escala para cumprir tais obrigações, abrindo espaço para uma desvantagem competitiva regulatória que o bloco atribui a barreiras ao comércio não tarifárias.
Em agosto de 2025, o governo dos EUA ameaçou retaliações caso Bruxelas seguisse com as normas. Em dezembro, o USTR elevou o tom, mencionando tarifas sobre empresas europeias, como Spotify e DHL, se a UE não recuasse.
O AI Act, com vigor desde agosto de 2025, intensificou disputas ao mirar modelos de IA de uso geral, com impactos desproporcionais sobre empresas americanas, segundo Washington. Regulamentação é vista como desvantagem competitiva.
Um acordo comercial em Turnberry, na Escócia, em julho de 2025, reduziu tarifas para grande parte das exportações europeias, mas o equilíbrio permanece frágil diante de alegações de práticas desleais.
Pequenas e médias empresas europeias enfrentam custo maior, migrações de dados mais caras e menor disponibilidade de serviços, afetando inovação e competitividade frente a rivais globais.
A defesa da soberania tecnológica, segundo defensores da UE, passa pela redução de barreiras comerciais, menos custo regulatório e facilidade de atrair talentos e capitais. O debate leva a decisões políticas que afetam usuários finais.
Fonte: Cláudia Ascensão Nunes, comentadora política portuguesa. Publicação sob permissão, com base em material internacional consultado pela imprensa. ©2026 Fundação para a Educação Econômica.
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