Nesta segunda-feira (31), o iFood apresentou uma denúncia ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) contra a Keeta, plataforma de delivery da chinesa Meituan. A empresa de delivery de comida, controlada pela Prosus, pediu que o órgão antitruste investigue a estrutura econômica da operação da Keeta no Brasil. A acusação central é que a rival […]
Nesta segunda-feira (31), o iFood apresentou uma denúncia ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) contra a Keeta, plataforma de delivery da chinesa Meituan.
A empresa de delivery de comida, controlada pela Prosus, pediu que o órgão antitruste investigue a estrutura econômica da operação da Keeta no Brasil. A acusação central é que a rival estaria usando recursos do caixa da controladora para bancar descontos agressivos, incluindo cupons de até R$ 250.
Na avaliação do iFood, a estratégia da Keeta não representaria uma concorrência “por mérito”. Pelo contrário, indicaria uma disputa baseada na capacidade de sustentar prejuízos por mais tempo para ganhar escala no mercado.
IFood também já foi alvo
A denúncia do iFood reacende as fagulhas de uma disputa jurídica que tem sido intermediada pelo Cade. Em 2023, o iFood foi alvo de investigação por práticas anticoncorrenciais.
Como consequência, a empresa ficou proibida de fechar contratos de exclusividade com redes que tenham mais de 30 estabelecimentos. O acordo também limitou a 25% o volume de vendas atrelado a restaurantes exclusivos e a 8% o número de estabelecimentos exclusivos por cidade.
A Secretaria-Geral da Presidência, na figura do ministro Guilherme Boulos (PSOL), tem questionado a empresa sobre o modelo de remuneração dos entregadores. A discussão envolve dois modelos de entrega: o Nuvem, em que o entregador ganha entre R$ 7 e R$ 7,50 por entrega, e o Mais Entregas, em que a remuneração fica em até R$ 3,50 por entrega.
Na sexta-feira (28), o iFood disse que os entregadores, na modalidade Mais Entregas, não recebem menos que um salário mínimo. Atualmente, o valor está em R$ 1.621. No documento, a empresa diz que os colaboradores ganham entre 10% e 30% a mais do que os entregadores no modelo tradicional.
O retorno da 99Food ao Brasil
A disputa no Cade se acirrou com o retorno da 99Food ao Brasil. Lançada em 2019, a operação deixou o país em 2023 em meio à forte concorrência com o iFood. Em 2025, a empresa voltou ao mercado brasileiro com um plano de investimento de R$ 2 bilhões e meta de chegar a 100 cidades até meados de 2026.
Em outubro daquele ano, a 99Food entrou com uma ação na Justiça contra o iFood. A empresa alegou que a concorrente promovia ações para reduzir a visibilidade de sua marca em pontos de encontro de entregadores, oferecendo incentivos para que eles substituíssem mochilas da 99Food por outras com a marca do iFood.
Keeta e acusações de espionagem
A Keeta chegou ao Brasil em outubro de 2025, com anúncio de investimento de R$ 5,6 bilhões. Presente na China e no Oriente Médio, a plataforma escolheu o Brasil como primeiro mercado ocidental para iniciar suas operações.
Porém, a empresa afirmou ter encontrado um mercado dominado por iFood e 99Food, com contratos de exclusividade junto a restaurantes. Segundo a Keeta, esses acordos dificultam a inclusão de estabelecimentos populares na plataforma.
Além da denúncia ao Cade, o iFood também move uma ação judicial contra a Keeta em um tribunal comercial de São Paulo desde maio de 2026. Segundo documentos obtidos pela Reuters, o iFood pediu que a Justiça determine mudanças nas práticas comerciais da concorrente e o pagamento de indenização por danos morais.
No processo, o iFood afirma que empresas de consultoria abordaram funcionários da companhia para obter informações comerciais confidenciais em troca de “compensação significativa”.
O iFood afirma ter identificado um ex-funcionário que aceitou uma dessas propostas e participou de uma videoconferência enquanto ainda trabalhava na empresa. O caso levou a uma investigação policial, com busca e apreensão de dispositivos eletrônicos.
Em comunicado à Reuters, a Keeta afirmou defender um mercado aberto e justo, em conformidade com as regras aplicáveis. A empresa negou ter contratado terceiros para abordar pessoas em seu nome.
Mercado bilionário
As disputas ocorrem em um dos mercados de delivery mais relevantes do mundo. Segundo a consultoria Statista, o setor no Brasil deve atingir US$ 27 bilhões até 2029.
A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) afirma que o delivery já representa até 30% do faturamento dos estabelecimentos, o que reforça a importância da concorrência para equilibrar custos e ampliar oportunidades.
Na avaliação do Cade, algumas características do mercado aumentam barreiras à entrada de novos concorrentes. Entre elas, apontadas em um estudo sobre casos internacionais, estão os programas de fidelidade, o acesso a grandes volumes de dados e os algoritmos de recomendação.
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