João Gilberto realizou, em 1985, um show inusitado em São Paulo, numa danceteria em formato de navio caravela chamada Latitude 3001, na Avenida 23 de Maio. O evento ocorreu numa quinta-feira à noite, dois dias antes de ele se apresentar com 22 músicos da Orquestra Sinfônica do Estado no Palácio das Convenções do Anhembi. A apresentação surpreendeu quem duvidava do formato e da disponibilidade técnica do local.
A repórter Maria Amélia Lopes acompanhou o show para o Jornal da Tarde, em 29 de junho de 1985. Segundo a crônica, João Gilberto chegou duas horas atrasado, manteve o humor e enfrentou falhas de som, que comprometeram o violão e, em parte, a voz. Mesmo assim, o artista manteve a concentração e subiu ao palco às 1h da madrugada.
O público enfrentou boatos sobre a vinda do maestro e, durante o atraso, a casa tentou acalmar a plateia. Ao subir ao palco, Gilberto improvisou diante das falhas técnicas, priorizando o repertório de fases anteriores e de compositores brasileiros. O show teve tom de improviso, com o cantor buscando equilíbrio entre voz, violão e condições do cenário.
Repertório e interpretação
O palco recebeu canções de Wilson Batista, Haroldo Lobo, Marino Pinto, Henrique de Almeida, Assis Valente, Geraldo Pereira e Nelson Trigueiro. A leitura de cada tema ganhou tratamento harmônico moderno, característico de Gilberto, com retorno ao espírito da bossa-nova. A crítica destacou a clareza e a qualidade da performance, sem igual, mesmo com os contratempos.
Para a apresentação no Anhembi, a expectativa era de um show mais amplo, com 22 músicos da Orquestra Sinfônica do Estado. O jornalista aponta que o repertório tende a incorporar padrões do disco Amoroso, de 1977, com cortes elegantes como Caminhos Cruzados e Triste, acompanhados de S Wonderful. A crítica ressalta a versatilidade do artista.
A avaliação final aponta que a noite no Latitude 3001 revelou um Gilberto imprevisível, capaz de transformar adversidades em virtuosismo. O desempenho manteve o público em atenção, demonstrando o peso da interpretação pessoal do cantor sobre um conjunto de composições históricas da música brasileira.
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