Vik Muniz recria relíquias perdidas a partir de cinzas, em uma mostra que circula entre o Museu Nacional e outros espaços do Rio de Janeiro. O artista, que estava na Holanda trabalhando com flores, soube do incêndio que devastou o museu em 2018 e decidiu transformar a tragédia em obra de arte.
A intervenção envolve objetos do acervo perdido. Entre as peças recriadas estão trechos do crânio de Luzia, o mais antigo hominídeo da América. Muniz redesenhou as imagens com cinzas próprias, registrando tudo em fotografias que integram a exposição.
A mostra Rescaldo das Memórias, no Museu Nacional, reúne ainda dez fotografias de recriações e nove esculturas de resina com cinzas. As peças foram criadas com apoio tecnológico do LAPID, da UFRJ.
Rescaldo das Memórias
As obras partem da própria crise para reconstrução museológica e artística. Cada peça aponta para a relação entre memória coletiva e materialidade do objeto, com uso de cinzas, poeira e materiais simples. A curadoria é de Daniel Rangel.
Ailo de memória se amplia ao lado de outras peças, como uma boneca Ritxoko da etnia karajá e uma nova versão de Luzia em escultura, ambas feitas com resinas e cinzas. A mostra estreita a ligação entre passado e presente por meio da materialidade.
Além da mostra no Museu Nacional, Vik Muniz apresenta uma retrospectiva no CCBB. A exposição A Olho Nu reúne mais de 220 trabalhos, de 43 séries, desde os anos 1980 até produções emblemáticas como Medusa Marinara de 1997.
A Olho Nu
A curadoria desta exposição também é de Daniel Rangel. A mostra no CCBB oferece uma visão abrangente do percurso do artista, com a fusão entre arte de fotografia e escultura. O formato conta com peças históricas e trabalhos recentes, permitindo leitura de distintas fases criativas.
Desde a abertura, a retrospectiva tem atraído grande público, com mais de 100 mil visitantes. Crianças aparecem entre os interessados, atraídas pela ludicidade de peças que utilizam geleia, pasta de amendoim, lixo e, às vezes, diamantes como material de construção visual.
Muniz comenta que busca aproximar arte e público por meio de imagens já familiares, tornando a linguagem acessível sem perder o rigor. A ideia é cruzar obras entre fotografia e escultura, estimulando o olhar crítico sem imposições.
Em 2024, o artista comemora quase quatro décadas desde a primeira exposição. Ele aponta que a trajetória ocorreu de forma orgânica, sem planejamento rígido de carreira, mantendo a prática como foco de continuidade.
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