- O fotógrafo Bob Wolfenson aproveitou a enchente de fevereiro de 2020, que afetou seu acervo, para criar o livro e a exposição Sub/Emerso, transformando a lama em traços criativos.
- A trajetória dele é marcada pela morte precoce do pai, aos quinze anos, evento que moldou sua vida e levou ao início da carreira no estúdio da Editora Abril.
- Wolfenson analisa a mudança no ensino público da nudez na mídia e explica o turning point com Maitê Proença na Itália, quando passou a ditar regras em ensaios autorais.
- Em parceria com a mineradora Vale e a cantora Gaby Amarantos, houve uma exposição no Museu do Amanhã, com ações de reparação e registro autoral do fotógrafo pela floresta amazônica.
- Em meio a um mercado desfavorável, ele sustenta retratos para famílias e executivos, mantém a humildade diante da superexposição e segue produzindo projetos pessoais.
Bob Wolfenson, aos 71 anos, consolidou uma assinatura própria na fotografia ao longo de mais de cinco décadas. Seu trabalho vai além da técnica: ele cultiva uma visão que alia leveza, jogo e uma postura sem pretensão, mantendo-se ativo em um mercado cultural que atravessa dificuldades.
A virada ocorreu em fevereiro de 2020, quando uma enchente atingiu seu estúdio na zona oeste de São Paulo, devastando parte do acervo. Em vez de ceder ao luto, ele viu na lama coautoras involuntárias: marcas que enriqueceram as imagens e deram origem ao livro e à exposição Sub/Emerso. A produção resulta de cinquenta anos de trajetória, agora fundidos à força do imponderável.
Wolfenson comenta que a adversidade o levou a uma leitura poética do acaso. A partir da inundação, foi possível transformar resíduos e manchas em material criativo, gerando uma expressão chamada sobrememória, que dialoga com a memória já registrada pela fotografia. O projeto ganhou forma em exposição e livro, destacando o papel da natureza na construção da imagem.
Sub/Emerso: diálogo entre desastre e memória
O fotógrafo analisa o atual cenário da produção de retratos, marcado pela escassez de oportunidades e remunerações menores. Sem traçar uma estratégia específica de reinvenção, ele prefere navegar e manter a prática como necessidade econômica. O caminho paralelo entre trabalho comercial e autoral, seguido desde os anos 90, sustenta sua continuidade.
Wolfenson relembra parte de sua história familiar: o falecido pai, aos 15 anos, foi o motor inicial de sua entrada no mundo da fotografia. A perda precoce moldou não apenas a carreira, mas também uma relação duradoura com a família, que ele descreve como a âncora de seu amadurecimento. A trajetória é marcada por um equilíbrio entre humor e rigidez profissional.
Encontro efêmero, registro perene
O trabalho de retrato, segundo o fotógrafo, depende de encontros breves que podem render imagens duradouras. Em suas fotos icônicas, o tema carrega a imagem mais do que o fotógrafo quem o retrata. O Caetano Veloso com o olhar aberto é citado como exemplo de como a expressão pode se tornar emblemática mesmo sem planejamento prévio.
Wolfenson detalha ainda técnicas de direção, como pedir deslocamentos sutis na expressão facial para alcançar o efeito desejado. Ele compara o papel do fotógrafo ao de um marceneiro e, em conjunto com o designer, cria o conceito da imagem naquele instante decisivo. A imagem do Caetano nasceu de uma sugestão simples que ganhou força com o tempo.
Desapego, legado e fotografia na era institucional
Além de retratos, Wolfenson mergulha em projetos que cruzam o institucional com o autoral. Em parceria com a Vale e a cantora Gaby Amarantos, o artista executou uma exposição no Museu do Amanhã, em Belém, com ações de reparação social e apoio a populações ribeirinhas. O projeto foi acompanhado por registros que refletem o percurso do fotógrafo pela floresta, evidenciando o equilíbrio entre apoio institucional e expressão individual.
Sobre o futuro da sua produção, ele aponta um mercado corporativo sólido e uma prática contínua de explorar projetos pessoais. Em meio à agitação da economia da atenção, ele afirma manter foco no olhar e na qualidade do retrato, sem se render a modismos efêmeros. O artista ressalta que a criatividade continua a impulsionar sua atuação, mesmo após décadas de carreira.
Inteligência artificial, olho humano e o tempo
No debate sobre o avanço da inteligência artificial, Wolfenson afirma que, ainda que a tecnologia evolua, o olhar humano permanece central. Ele manifesta curiosidade sobre a IA como ferramenta, desde que seja dirigida pelo seu próprio ponto de vista. A ideia é manter o equilíbrio entre técnica e sensibilidade, preservando a essência do trabalho fotográfico.
Ao encerrar a entrevista, Wolfenson comenta a experiência de chegar aos 71 anos na estrada. Embora reconheça que a ambição diminuiu, a ansiedade persiste para manter a produção ativa. Apenas com o tempo, diz ele, é possível compreender o que vale a pena manter e o que aprender a abandonar.
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