- Ana Paula Maia, escritora brasileira de 48 anos, foi finalista do Booker Internacional com o romance Assim na terra como embaixo da terra, e perdeu para Taiwan Travelogue.
- Em entrevista ao UOL, ela diz que não escreve sobre recorte identitário e que prefere ambientes onde “basta ser bom”, sem foco na identidade.
- O romance se passa em uma colônia penal desativando, cercada por muros e eletrificação, com temas de violência, mortes e exploração.
- A discussão sobre identidade envolve Itamar Vieira Junior e críticas sobre reduzir autores a rótulos; Maia afirma não querer ser tratada apenas por sua origem.
- O júri de Londres elogiou a obra pela linguagem seca e contundente, descrita como “novela brutal, assombrosa e hipnótica”; o próximo livro, O tenebroso brilho do sol, sai no segundo semestre e se passa no Rio Grande do Sul.
Ana Paula Maia, escritora brasileira de 48 anos, ganhou destaque internacional ao ser finalista do Booker Internacional com Assim na terra como embaixo da terra. A autora, nascida em Nova Iguaçu, enfrenta críticas sobre identidade e gênero em meio a uma análise de sua obra.
Em entrevista ao portal UOL, Maia afirma não trabalhar com tema identitário e diz que seus textos tratam de sistemas de poder, não da vida cotidiana brasileira. Ela ressalta que não há protagonismo feminino em suas narrativas e prefere ser avaliada pela qualidade literária.
A repercussão levou a debates, com o escritor Ale Santos destacando a persistência do tratamento de horror e ficções de gênero como menos valorizados para autores negros. A discussão ganhou também o BookTwitter, onde Maia foi alvo de leituras diversas sobre identidade.
A obra e o cenário
O romance Assim na terra como embaixo da terra se passa numa colônia penal cercada por muros, com uma cerca eletrificada, sob a supervisão de um agente que caça condenados. A narrativa conecta violência histórica a um espaço de confinamento contemporâneo, sem identificar um Brasil específico.
A história desenha uma geografia de corpos mortos e enterrados, sugerindo uma crítica às camadas de violência que antecedem o presídio. Ao longo da leitura, personagens humanos aparecem pela função social que exercem, não pela origem ou pela cor.
O debate sobre identitarismo
O caso de Maia dialoga com Itamar Vieira Junior, que também foi finalista do Booker em 2024 com Torto Arado. Enquanto Vieira Jr. sustenta uma leitura que não restringe o escritor a uma etiqueta identitária, Maia mantém o foco na forma e na contenção do tema.
A polêmica ganhou novas camadas com declarações de tradutores e críticos, ressaltando a tensão entre identidade e mercado editorial. Analistas salientam que a literatura pode dialogar com memória e forma sem reduzir o escritor a rótulos.
A forma acima do tema
A avaliação dos jurados de Londres destacou a prosa seca e presente de Maia, considerada por eles brutal, assombrosa e hipnótica. A autora admite trabalhar sob pressão de produção, sentindo cansaço ao concluir cada livro, e já prepara o próximo, O tenebroso brilho do sol, ambientado no Rio Grande do Sul.
A pergunta principal que fica é o motivo de Maia não buscar um Brasil mais reconhecível fora dos temas de crime e violência, apesar de não se afastar de cenários onde a crueldade molda a narrativa.
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