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Machado de Assis e a política do estômago em foco

A mesa e a comida são palco de ascendência social, poder e identidades no Rio oitocentista, moldando hábitos, etiqueta e distinção social

Retrato do escritor Machado de Assis no livro 'O Espelho de Papel', com imagens feitas por Joaquim Insley Pacheco, fotógrafo oficial da Casa Imperial de 1857 até a República. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
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  • A chegada da família Real ao Brasil em 1808 mudou o Rio de Janeiro, que passou a ter cafés, restaurantes e confeitarias, refletindo uma nova sociabilidade urbana.
  • Em Quincas Borba, Rubião contrata um cozinheiro francês, Jean, para ascender socialmente e impor autoridade cultural na casa.
  • A hierarquia muda nos funcionários: francês no topo da cozinha, espanhol na sala e brasileiro negro nos bastidores, com o pajem mineiro degradado a serviços menores.
  • A comida passa a ser símbolo de status e leitura social, com detalhes como xícaras de prata, açúcar e champanhe funcionando como sinais de distinção.
  • Machado de Assis usa a gastronomia para mostrar a relação entre mesa e rua, a presença da feijoada nos menus a partir de 1862 e a ideia de “democracia do estômago” nos seus relatos.

Nos textos de Machado de Assis, a comida não é apenas alimento, mas espelho das mudanças da sociedade. Em 2024, o lançamento de Quincas Borba completa 135 anos, enquanto uma nova biografia levanta questões sobre as raízes do escritor. A relação entre mesa e poder aparece como tema central.

A família real chegou ao Brasil em 1808 sob escolta britânica, inaugurando uma nova capital urbana para a colônia. O Rio de Janeiro tornou-se palco de transformação social, onde costumes, cafés e restaurantes refletiam uma sociabilidade emergente, segundo Rosa Belluzzo.

Conforme a pesquisadora, o Rio presenciou o florescer de mesas postas à francesa, manteiga importada e chá aristocrático. Em Quincas Borba, Rubião contrata um cozinheiro francês para ascender socialmente, evidenciando o papel da alimentação na hierarquia social.

O texto mostra ainda a mudança de empregados e origens: espanhol na sala, criados brasileiros, e a demissão de um pajem mineiro para abrir espaço ao chef francês. A culinária passa a simbolizar status cultural.

Especialistas apontam que entre 1854 e 1890 o restaurante desponta como templo da civilização carioca, transformando a comida em espetáculo público. O cenário inspira Machado, que observa a mesa como palco de identidades nacionais.

Nos contos e nas memórias, a comida vira instrumento de poder e de distinção. Em As Bodas de Luís Duarte, a ceia substitui a cerimônia religiosa, revelando uma democracia do estômago onde a fartura molda hierarquias, não por igualdade, mas pelo consumo.

O champagne nos brindes de Machado funciona como símbolo de leitura do mundo por meio de etiquetas e expressões estrangeiras. A culinária reflete uma relação entre gosto, linguagem e status, presentes na burguesia do Rio.

A produção gastronômica carioca e brasileira surge da tensão entre a mesa europeizante e a rua, onde o angu e a feijoada aparecem nos menus. Machado captura essa duplicidade com ironia, mostrando o peso social da alimentação no Império.

O autor observa a evolução do paladar público, de confeitarias cheias a comidas de rua oferecidas por trabalhadores escravizados. A partir de 1862, a feijoada começa a aparecer com mais frequência nos pedidos comerciais.

Em suas obras, Machado aponta que a comida não é o sabor em si, mas quem a consome e como se comporta diante do prato. A etiqueta e o julgamento social são os principais guias das cenas na narrativa.

O conjunto de textos, pesquisas e biografias reafirma: a gastronomia no século XIX no Rio é campo de disputas entre tradição europeia e realidade brasileira. A mesa funciona como lente para entender classe, cultura e política.

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