- Paulo Henriques Britto lança, aos 74 anos, o livro de poemas Não mencionado explicitamente no título, “Embora”, que encara a finitude e o crepúsculo da vida.
- o volume trabalha com um soneto metalinguístico, carregado de autoironia, e reforça a ideia de que o gesto poético pode ser inútil diante da morte, ainda que o poema peça para escrever mesmo assim.
- a obra continua a tradição de Britto de usar séries de poemas, em tom monocórdio, com destaque para versos que exploram a matéria inanimada e o pessimismo temperado por humor.
- entre os destaques, estão poemas como “Mais uma Falange” e “Natureza-morta III”, além das “Quatro Glosas” que dialogam com Emily Dickinson, Wallace Stevens, Samuel Beckett e Edimilson de Almeida Pereira.
- a crítica aponta que, apesar de a leitura ser elegante e erudita, o livro pode soar menos memorável por carecer do hedonismo sutil presente em obras anteriores, ainda assim mantendo a força da erudição e do humor.
Paulo Henriques Britto estreia o livro Ainda não intitulado? Não. O poeta encara a finitude no recém-lançado Embora, seu noroeste literário, que reúne poemas centrados no crepúsculo da vida. O tom do conjunto é marcado pela autoironia e pela reflexão sobre a efemeridade da existência.
O volume abre com um soneto que funciona como abertura temática: o poeta, aos 74 anos, reforça que a morte é inevitável e que o gesto poético pode parecer insuficiente diante desse fato. O título do livro sintetiza a busca por sentido diante da finitude.
Embora mantém traços recorrentes na obra de Britto, como o interesse por séries de poemas que atuam como peças musicais. Nesse conjunto, porém, tais séries acabam por diluir o impacto global, segundo a leitura de críticos especializados.
Estrutura, temas e referências
Entre os poemas, destacam-se composições que exploram a materialidade como fonte de humor e assombro. A obra também dialoga com a tradição poética por meio de quatro glosas que remetem a Dickinson, Stevens, Beckett e a poeta brasileira Edimilson de Almeida Pereira, aproximando o texto de influências diversas.
O autor, também conhecido por sua atuação como professor e tradutor, utiliza o diálogo com modelos literários para reforçar o estilo erudito, ao mesmo tempo em que mantém a ironia característica. Em passagens marcadas, o leitor encontra tensão entre desejo e aceitação do fim.
A avaliação crítica aponta que Embora é dotado de momentos de destaque, com poemas que amadurecem a ideia de passagem sem deixar rastro. O conjunto é visto como contemplativo, com ênfase na ascese como abordagem frente à finitude.
Este livro sucede o tomo anterior, Fim de Verão, de 2022, que já sinalizava um viés menos ficcional e mais realista, em que o presente parece vencer a fantasia. Embora, por sua vez, aprofunda o tema da mortalidade com uma tonalidade mais austera.
Apesar de o autor ter alcançado reconhecimento ao ingressar na Academia Brasileira de Letras, a recepção crítica indica que o conjunto pode deixar de chamar a atenção de leitores que buscam uma explosão de novidade. Ainda assim, é apontado como uma leitura valorizada para quem aprecia referências e humor sutil.
Paulo Henriques Britto permanece um nome relevante da poesia brasileira, distinguindo-se pela erudição aliada à leveza. Embora não se propõe a ser um marco disruptivo, oferece ao leitor uma visão contida sobre o que significa existir entre o desejo, o acaso e a memória.
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