- A narradora é uma escritora de 35 anos, em relacionamento complicado, porém afetuoso, com o namorado Michael.
- O objeto de desejo é uma poeta famosa, 17 anos mais velha, que leciona na mesma universidade e encanta pela fama e elegância; o narrador quer “estar com ela”.
- A relação se desenrola com o narrador idealizando a poeta, apelidada de “Kingfisher”, e explorando assimetrias de poder na dinâmica entre eles.
- Com o diagnóstico de câncer da poeta, o vínculo ganha contornos de amor estável, incluindo episódios de álcool, drogas e encontros casuais, enquanto o narrador lida com a família e preconceitos da mãe.
- Embora tenha verve e audácia, a obra oscila de tom, abandona algumas linhas narrativas e termina com uma atmosfera de fantasia gótica, chegando perto de parecer um sonho.
- O livro foi finalista do Women’s Prize for Fiction.
Rozie Kelly lança Kingfisher, romance contundente que já ficou entre os finalistas do Women’s Prize for Fiction neste ano. A história acompanha um narrador não identificado, 35 anos, escritor bonito e envolvido com um homem que é também belo, porém pouco empolgado. O objeto de desejo é uma poeta famosa, 17 anos mais velha, professora num curso da mesma universidade.
O enredo começa com uma atração imediata e disruptiva. O narrador, que pretende apenas discutir um conjunto de poemas inexistentes, se vê envolvido por uma relação que ganha contornos de poder e desejo. A figura da poeta, carismática, rica e famosa, exerce uma atração intensa sobre ele desde o primeiro encontro.
A partir daí, a narrativa alterna entre o cotidiano de uma relação complicada e momentos de revelação. Com o tempo, a história introduz a doença terminal da poeta, o que redefine a dinâmica entre eles e desloca o eixo para uma convivência marcada por cuidado e afeto, ainda que envolta em ambiguidade.
A trama envolve também o passado do narrador, a relação distante com o companheiro Michael e a pressão de uma família, incluindo uma mãe com atitudes conservadoras. O texto usa linguagem direta para explorar desejos, ciúmes, obsessões e a ideia de que todos os envolvidos podem estar explorando uns aos outros.
Mudanças de tom e desdobramentos
Conforme o romance avança, o tom migra de uma franqueza inicial para tons mais sombrios e, em momentos, para elementos de fantasia sombria. A autora experimenta estilos e em alguns trechos o enredo parece buscar uma direção mais fantasiosa do que realista.
O conjunto é marcado por personagens bem desenhados, mas alguns deles desaparecem ou ficam em segundo plano, o que gera sensação de vínculo fraturado entre tema e desenvolvimento. A narrativa recorre a reviravoltas que podem soar abruptas para leitores atentos à coesão.
Ao final, o livro encerra em tom ambíguo, com a sensação de que parte da tensão central permanece sem resolução. A obra é vigorosa, arriscada e com momentos de brilho, mas não encontra uma conclusão plenamente satisfatória para todos os fios abertos.
Kingfisher se mostra, portanto, um romance de verve e energia, capaz de provocar inquietação e curiosidade. A leitura privilegia a intensidade de sentimentos, ainda que algumas linhas narrativas fiquem menos exploradas ao longo da trajetória.
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