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Espíritos das árvores, a ecologia não intencional da crença

No Borneo indonésio, crenças em espíritos de figueiras mantêm árvores em campos, gerando ilhas ecológicas que protegem espécies sem políticas formais

Topik, a local guide in Sungai Utik, West Kalimantan, next to the extensive aerial roots of a strangler fig. Image courtesy of Ditro Wibisono Wardi Parikesit.
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  • No Borneo indonês, povos Iban mantêm florestas vivas por temor aos espíritos que supostamente habitam figueiras-gatrás (strangler figs).
  • Ao limpar campos, eles deixam figueiras grandes em meio às lavouras, criando “ilhas” de vegetação chamadas dipulau, que conectam floresta e campo.
  • As figueiras em campo produzem frutos em épocas diferentes, atraem aves, primatas e javalis, servindo de abrigo e ponto de passagem para fauna local.
  • Medidas mostram que figueiras estranguladoras são tão comuns em áreas agrícolas quanto na floresta; as árvores maiores em campo ficam sem competição próxima.
  • A crença, que antes protegia as árvores, está perdendo força com a adesão ao catolicismo entre os moradores; ainda assim, a prática de conservar por normas compartilhadas persiste, configurando uma conservação autônoma.

Em áreas de Birmânia ocidental da Indonésia, florestas resistem não por leis, mas pelo medo. Entre os Iban de Sungai Utik, figueiras trepadeiras são tidas como moradoras de espíritos que podem enganar, adoecer ou matar quem as perturba. A crença se apoia em relatos, avisos e perdas sentidas, conforme cobertura recente de Mongabay.

Um relato lembra um menino que sumiu perto de um arrozal e reapareceu horas depois sob o abraço de uma figueira gigante. Segundo ele, espíritos o chamaram e o esconderam em plena vista. A família recorreu a um xamã e o nome dele foi alterado para romper o domínio espiritual. A árvore permaneceu.

Paralelamente, pesquisadores observam efeitos tangíveis no território. Ao abrir áreas para cultivo, os Iban deixam figueiras gigantes de pé e criam bolsões de mata em meio às lavouras, formando verdadeiras ilhas ecológicas chamadas dipulau, ou simplesmente ilha.

Em Sungai Utik, as figueiras são tão comuns no campo quanto na mata antiga. Muitas crescem mais livres entre cultivos, sem competição próxima. O resultado é um mosaico agrícola que preserva relevância ecológica por tradição, não por política.

A prática conserva alimento para aves, primatas e javalis, além de favorecer a regeneração de sementes. A madeira funciona como corredores entre floresta e cultivo, com movimentos de animais ainda observáveis. A ilha verde aparece como resposta autônoma à pressão humana.

O saber tradicional que protege as árvores enfrenta mudanças. A maioria é hoje católica e alguns jovens relativizam o castigo espiritual pela derrubada. Ainda assim, o tabu persiste, ainda que de forma menos rígida que antes.

Essa erosão de crenças tem efeito concreto: preserva árvores que abrigam espécies e mantêm a regeneração de sementes. Contribui para o uso da terra sem depender de incentivos ou sanções. Pesquisadores chamam esse fenômeno de conservação autônoma, guiada por normas compartilhadas.

Independentemente da crença sobre a presença de espíritos, o essencial é que a floresta tem sido poupada repetidamente. A cada recusa de cortar certas figueiras, há um respiro para ecossistemas locais. Em meio a estratégias de proteção, esse “limite” merece atenção.

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