Um dia antes de ouvir seu nome no Draft da NBA, Kingston Flemings decidiu explicar às franquias porque acreditava estar pronto para a Liga. Não falou apenas sobre suas qualidades ou estatísticas dentro da quadra. Em uma carta publicada no The Players’ Tribune, o armador contou duas histórias em que foi derrubado, uma pela vida e outra pelo basquete.
Um dia antes de ouvir seu nome no Draft da NBA, Kingston Flemings decidiu explicar às franquias porque acreditava estar pronto para a Liga. Não falou apenas sobre suas qualidades ou estatísticas dentro da quadra. Em uma carta publicada no The Players’ Tribune, o armador contou duas histórias em que foi derrubado, uma pela vida e outra pelo basquete.
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A resposta à carta veio na noite seguinte, no palco do Draft. Flemings foi escolhido pelo Atlanta Hawks na oitava posição, tornando-se uma das dez primeiras escolhas de 2026. O clube apostou em um armador de 19 anos que havia se destacado em sua única temporada universitária por Houston.
A carta, portanto, foi escrita quando Flemings ainda não sabia onde começaria a carreira profissional. Era uma apresentação aos gerentes das franquias que estavam prestes a decidir seu futuro, mas também uma tentativa de mostrar algo que dificilmente apareceria nos vídeos e em todas as análises feitas pelas equipes.
Flemings sabia que todos já conheciam suas virtudes em quadra. O que ele queria revelar era como havia se tornado aquele jogador, então escolheu dois acontecimentos separados por quase toda a sua vida.
O primeiro ocorreu quando tinha apenas quatro anos. O segundo, em 26 de março de 2026, quando o Houston Cougars perdeu para Illinois e foi eliminado antes do Elite Eight do Torneio da NCAA.
Ao trazer essas duas histórias, Flemings não tentou comparar a gravidade dos acontecimentos. O objetivo era mostrar a forma como aprendeu a reagir depois de cair.
Primeira queda
Quando era criança, ele brincava com o primo em frente à casa de uma tia, localizada em uma rua sem saída. Os dois jogavam uma bola de um lado para o outro quando Kingston correu para buscá-la.
Dois veículos estacionados bloquearam sua visão. Sem perceber que um outro carro estava dando ré, o menino acabou batendo na lateral do automóvel e caiu. O pneu traseiro passou sobre seu corpo na altura do quadril. Kingston havia sido atropelado.
As marcas do pneu ficaram visíveis na calça e gravadas na pele, atravessando praticamente toda a largura do quadril. A barriga estava muito inchada, o que levou os primeiros médicos a suspeitarem de lesões e hemorragias internas.
Os exames identificaram uma pequena fratura no quadril, o braço machucado e queimaduras provocadas pelo atrito com o asfalto. A pouca idade, no entanto, ajudou a evitar consequências ainda mais graves. Como os ossos de Kingston ainda eram flexíveis, alguns se curvaram sob o peso do veículo em vez de se partirem.
Ele permaneceu um dia e meio na UTI e passou quase o mesmo tempo em uma unidade de recuperação. Quando conseguiu enfrentar a dor e dar alguns passos, recebeu alta.
A mãe de Flemings acredita que o filho voltou diferente. Antes do acidente, Kingston era uma criança tímida, quieta e pouco interessada por esportes. Depois da recuperação, passou a querer experimentar diferentes modalidades, conversar mais e aproveitar tudo o que aparecia pela frente.
“O acidente me ensinou muito sobre como precisamos reagir às adversidades e nos adaptar às circunstâncias que encontramos. Nesta vida, precisamos aproveitar ao máximo cada oportunidade que recebemos.”
Segunda queda
Em março de 2026, Houston enfrentou Illinois por uma vaga no Elite Eight, a final regional da NCAA (National Collegiate Athletic Association), organização que comanda o esporte universitário nos Estados Unidos. Com a derrota, a campanha terminou no Sweet 16.
Quando o cronômetro chegou ao fim, o armador desabou. Flemings sabia que aquela seria sua última partida ao lado de vários companheiros. Mesmo que permanecesse mais um ano na universidade, parte daquele grupo encerraria a trajetória por Houston.
A derrota também significava o fim de uma meta escrita no início da temporada, que era avançar além do Sweet 16 e conquistar o título nacional. Na carta, ele não tentou negar a emoção nem pediu desculpas pela reação. “Eu me importo muito”, escreveu.
Ao mesmo tempo, o novo nome de Atlanta mostra muita maturidade. “Não importa o quanto uma derrota seja dolorosa, eu não a carrego para o dia seguinte. Depois disso, é hora de avaliar toda a situação.”
Tradições
Na família Flemings, existe uma tradição: desde pequenos, Kingston e os irmãos são incentivados pelos pais a escrever os objetivos de cada ano em uma folha de papel. Quando uma meta não é alcançada, a orientação não é procurar desculpas ou fingir que ela nunca existiu. É preciso analisar o que aconteceu, identificar os erros e trabalhar para que a próxima tentativa seja diferente.
O título universitário permaneceu sem o “check” na lista de 2026. Flemings, então, passou os meses seguintes treinando e se preparando para o Draft. Foi nesse momento, ainda sem saber qual equipe o escolheria, que escreveu aos GM’s (General Manager) da NBA.
O armador que deseja conhecer cada companheiro
Na parte final da carta, Flemings apresentou a liderança como uma forte característica.
Ele escreveu que pretende conhecer profundamente os companheiros. Saber onde cada um prefere receber um passe, em quais pontos da quadra se sente mais confortável e até quais palavras de incentivo podem ajudá-lo a recuperar a confiança ou entrar em uma grande sequência.
Essa atenção aos detalhes faz parte da maneira como Flemings enxerga a função de um armador. Não basta criar a jogada, é preciso entender as pessoas envolvidas nela e colocá-las nas melhores condições possíveis.
“Praticamente desde que os hematomas daquele acidente cicatrizaram, venho buscando me desafiar, trabalhar o máximo possível, apoiar as pessoas e tornar todos ao meu redor melhores. Por mais estranho que pareça, sinto que me tornei uma espécie de armador na vida real aos quatro anos. E que tudo o que aconteceu desde aquele momento serviu para aperfeiçoar essas habilidades e características e me preparar para este exato instante.”
Como a adaptação chegou ao basquete
Essa capacidade de adaptação aparece no jogo de Flemings.
Em sua única temporada por Houston, o armador disputou 37 partidas e teve médias de 16,1 pontos, 5,2 assistências, 4,1 rebotes e 1,5 roubo de bola. Também converteu 48% dos arremessos de quadra, 39% das bolas de três e 85% dos lances livres.
Na Summer League, espécie de pré-temporada da NBA, ele também foi destaque, com 7,0 pontos, 6,5 assistências, 4,0 rebotes e 1,5 roubos+tocos em 24,3 minutos por jogo.
Flemings se destacou atacando a cesta, criando arremessos após o drible e encontrando companheiros em vantagem. Na defesa, é um marcador agressivo, capaz de pressionar muito bem os armadores adversários.
Na carta, ele relacionou essa versatilidade diretamente ao que viveu na infância.
“Consigo jogar de muitas maneiras e mudar rapidamente a minha atuação, seja de uma partida para outra ou durante o próprio jogo. Precisam que eu priorize a distribuição da bola em uma partida e, na seguinte, ataque mais a cesta em busca de pontos? Sem problema.”
Da carta para Atlanta
Um dia depois da publicação, o Atlanta Hawks escolheu Flemings na oitava posição do Draft e adicionou ao elenco um armador capaz de contribuir dentro e fora de quadra.
“Agora, quero realizar meu sonho, tornar-me o armador que sempre estive destinado a ser e conquistar vários troféus Larry O’Brien pela equipe que enxergar algo especial em mim. Sei que, com dedicação, determinação, disciplina e uma rotina, posso me tornar um jogador Hall of Fame. Esse é o objetivo. Estou escrevendo isso em uma folha de papel neste exato momento.”
Entre os dois momentos difíceis, construiu uma história que está, principalmente, na maneira como decidiu continuar depois de cada queda.
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