Imagine jogar tênis dentro de um aquário. Essa é a experiência do padel, um esporte de raquete praticado em duplas em uma quadra cercada por paredes de acrílico. Nele, a bola é rebatida após quicar e bater nas laterais, um elemento que transforma o jogo em uma disputa intensa de estratégia, controle de espaço e leitura de jogadas. Uma febre global […]
Imagine jogar tênis dentro de um aquário. Essa é a experiência do padel, um esporte de raquete praticado em duplas em uma quadra cercada por paredes de acrílico. Nele, a bola é rebatida após quicar e bater nas laterais, um elemento que transforma o jogo em uma disputa intensa de estratégia, controle de espaço e leitura de jogadas.
Uma febre global com crescimento acelerado no Brasil
O esporte vive hoje uma expansão rara nas últimas décadas. No Brasil, os dados oficiais da Confederação Brasileira do Padel (Cobrapa) indicam que a modalidade já supera 600 mil praticantes. Essas pessoas praticam o esporte nas mais de 2 mil quadras em 16 estados diferentes. O número de jogadores cresce entre 15% e 20% ao ano, conforme estimativas internas da entidade.
No restante do planeta, a febre é ainda maior. Segundo estimativas da Federação Internacional de Padel (FIP), há mais de 30 milhões de praticantes espalhados pelo mundo, concentrados principalmente na Argentina e na Espanha, onde o esporte só fica atrás do futebol em número de adeptos.
O crescimento global é também econômico. Dados da Cobrapa afirmam que o setor vive um momento de expansão de infraestrutura tão rápido que, em média, três novas quadras de padel são inauguradas por dia no mundo, um ritmo que supera o de outras modalidades esportivas sociais como o beach tennis. Um levantamento da Deloitte aponta que o mercado pode movimentar até 38 bilhões de reais até o fim de 2026, considerando receitas obtidas com quadras, eventos, equipamentos e serviços.
Quais são as regras do jogo?
O padel é jogado sempre em duplas em uma quadra de 20 metros por 10 metros cercada por paredes que fazem parte do próprio jogo. As regras lembram o tênis: o saque é cruzado, a bola pode quicar uma vez antes de ser rebatida, e a pontuação segue o tradicional esquema de 15, 30, 40, Game.
Mas a grande diferença é justamente essa quadra fechada. Ao permitir que a bola bata nas paredes após o quique, o esporte cria jogadas com giros, angulações e ritmos de bola que não existem em esportes de raquete tradicionais. Isso torna o jogo estrategicamente rico e único, mesmo para iniciantes, um dos motivos pelos quais novos jogadores se apaixonam rapidamente pelo esporte.
Do Sul para o Brasil – uma trajetória regional antes de nacional
No Brasil, o padel começou a ganhar força ainda no final dos anos 1980 e início dos 1990, influenciado pela proximidade com a Argentina e por clubes e clubes esportivos do sul do país que adotaram a modalidade precoce.
Hoje, cerca de 90% das quadras e atletas do país estão concentrados em três estados do Sul: Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Em cidades pequenas dessa região, o padel já faz parte do cotidiano esportivo local. Algumas com menos de 50 mil habitantes possuem 20 quadras ou mais, o mesmo número encontrado em grandes metrópoles como São Paulo.
Jogadores como Lucas Bergamini, número 1 do ranking internacional relatam experiências que vão desde crescimento técnico desde a infância até descobertas tardias em clubes urbanos — mas sempre com um ponto em comum: o amor imediato pelo jogo após os primeiros contatos com a quadra.
Por que o padel conquista tantos adeptos
A resposta de muitos praticantes é simples: o padel é divertido, social e acessível, tanto para aprender quanto para jogar.
Quem vem de esportes como o tênis ou o beach tennis entende rapidamente que, apesar de semelhanças, o padel é um jogo à parte. O uso das paredes, os golpes específicos como a bandeja e a víbora (golpes típicos do padel) e a necessidade de ler rapidamente o espaço transformam a modalidade em uma experiência nova mesmo para quem tem experiência com raquetes.
A “facilidade” percebida após algumas horas de prática, combinada com a possibilidade de jogar em duplas faz com que muitos participantes descrevam o padel como um esporte que “vicia” rapidamente. Além disso, a possibilidade de jogar em dupla possibilita que os praticantes socializem enquanto jogam, diferencial do jogo.
Essa dinâmica de jogo explica por que o padel tem sido abraçado por um público diverso — de jovens adultos a executivos, de quem busca um esporte competitivo a quem busca uma atividade social com amigos e família.
Mudanças técnicas ajudaram a popularizar o esporte
A expansão global do padel é uma história de impulso estrutural e interesse crescente.
Esses esforços foram acompanhados por mudanças técnicas nas quadras: do concreto e paredes simples dos primeiros anos, o esporte evoluiu para sistemas com paredes de acrílico, piso de grama sintética e estruturas mais leves, que reduzem impactos e tornam o jogo mais seguro e visualmente atraente — inclusive para transmissões televisivas.
Hoje é possível montar uma quadra de acrílico em um ou dois dias, o que favorece a expansão de espaços temporários e quadras em clubes urbanos.
Por que o esporte ainda não é mais popular no Brasil?
Se o jogo é divertido, fácil de aprender e cresce tanto no mundo, por que ainda não vemos quadras de padel em cada bairro brasileiro, como acontece com de futebol society ou com pistas de corrida?
A resposta, de forma direta, está no custo — não apenas para quem joga, mas especialmente para quem quer oferecer o esporte.
1. O custo de entrada é alto
O principal impeditivo para que o padel se “popularize” de maneira plena no Brasil é o custo da infraestrutura.
Levando em conta valor de terreno, mão de obra, materiais e tecnologia de construção, a instalação de uma quadra de padel com padrão competitivo custa em torno de R$ 200 mil.
Em centros urbanos com preços imobiliários elevados, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, esse custo inicial muitas vezes inviabiliza o investimento. A extensa estrutura necessária (sistema de drenagem, iluminação, paredes de acrílico, piso especial) torna o retorno financeiro lento e arriscado para empresários que consideram abrir um novo clube ou adicionar quadras a um espaço já existente.
2. Jogar padel ainda custa caro
A barreira não está apenas do lado do empresário. Do lado do jogador, a modalidade ainda é considerada custosa quando comparada a outros esportes sociais.
Em cidades com alta demanda como Porto Alegre, por exemplo, uma hora de quadra custa de R$ 50 a R$ 60, e uma aula individual pode chegar a R$ 250. Em São Paulo, os preços base do aluguel chegam a patamares semelhantes — ou seja, uma única hora de quadra pode custar o equivalente a uma aula completa no Sul do país, criando uma barreira econômica direta para quem deseja praticar regularmente.
Esse custo por sessão de jogo ou aula faz com que o padel ainda seja visto como um esporte de acesso restrito, principalmente em regiões onde há alternativas mais baratas de esporte coletivo.
3. Falta de divulgação institucional
Outro fator que limita a expansão do padel no Brasil é a ausência de divulgação ampla e massiva.
Embora o esporte conte com entusiastas, clubes e eventos regionais, não há ainda uma presença organizada das grandes federações esportivas nacionais ou programas amplos de incentivo esportivo que integrem o padel às escolas, clubes ou iniciativas comunitárias.
Personagens do circuito apontam que parcerias com organizações como a Federação Paulista de Tênis poderiam trazer ex-atletas de alto nível para o padel, elevando seu perfil técnico e popularizando a modalidade entre públicos que hoje ainda não a conhecem.
4. Formação técnica ainda insuficiente
Apesar de o jogo ser relativamente mais fácil de aprender do que o tênis tradicional, a formação de treinadores no Brasil ainda está aquém da necessidade de expansão. Muitos professores ainda vêm da Argentina — uma potência técnica no padel — o que evidencia uma lacuna no esporte brasileiro.
Essa dependência de formação estrangeira, além de elevar custos, dificulta a criação de um ecossistema brasileiro robusto de treinamento, que poderia estimular mais clubes, mais atletas e mais público.
Como será o futuro do padel?
Apesar desses obstáculos, a perspectiva é de expansão.
O padel já se consolidou como um dos esportes de maior crescimento no Brasil e no mundo, com milhões de praticantes e uma base de quadras que aumenta todos os dias. A expansão global mostra que o esporte ainda tem um enorme potencial de público e mercado.
No Brasil, o padel encontra um terreno fértil para crescer, desde que os custos e sejam reduzidos e a divulgação aumente. Programas de difusão em escolas, incentivos a empreendedores, formação técnica local e parcerias institucionais podem ser caminhos para transformar o padel de um esporte de nicho em um verdadeiro fenômeno nacional.
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