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Brescia e mais 4, pelo menos; por que tantos clubes italianos já faliram?

Clubes tradicionais também viram antigas sociedades quebrarem, em um futebol que acumula 5,5 bilhões de euros em dívidas

Roberto Baggio, Stephen Appiah e Pep Guardiola pelo Brescia. Foto: Reprodução/X

O Brescia se tornou o mais recente clube tradicional da Itália a ter a sociedade responsável por seu futebol declarada falida. Na terça-feira (28), o Tribunal de Brescia determinou a liquidação judicial da empresa, encerrando uma crise que já havia provocado o rebaixamento e a exclusão da equipe dos campeonatos profissionais do país. Fundado em […]

O Brescia se tornou o mais recente clube tradicional da Itália a ter a sociedade responsável por seu futebol declarada falida. Na terça-feira (28), o Tribunal de Brescia determinou a liquidação judicial da empresa, encerrando uma crise que já havia provocado o rebaixamento e a exclusão da equipe dos campeonatos profissionais do país.

Fundado em 1911, o clube passou pelas duas principais divisões italianas e teve jogadores como Roberto Baggio, Andrea Pirlo, Pep Guardiola, Gheorghe Hagi e Luca Toni. Segundo a agência ANSA, a antiga sociedade chegou à etapa final do processo com dívidas próximas de 20 milhões de euros.

Escudo antigo vs novo do Brescia Calcio. Imagem: Reprodução / Creative Commons

O caso representa mais um episódio de uma história recorrente no futebol italiano. Nas últimas décadas, clubes tradicionais como Fiorentina, Napoli, Parma e Palermo também chegaram à falência, mas voltaram às competições por meio de novas sociedades. 

Como um clube pode falir e continuar existindo? 

Para entender esses casos, é preciso diferenciar o modelo italiano da Sociedade Anônima do Futebol, a SAF, criada no Brasil.

Na Itália, clubes com jogadores profissionais devem funcionar como empresas. A Federação Italiana de Futebol exige que adotem o formato de sociedade por ações, a S.p.A., ou de sociedade de responsabilidade limitada, a S.r.l. 

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No modelo italiano, a empresa não apenas administrava o futebol, ela era a própria entidade responsável pelo clube profissional. Recebia receitas, contratava jogadores e funcionários, assumia dívidas e mantinha a filiação na federação. Portanto, quando o tribunal decretou a liquidação do Brescia Calcio S.p.A., faliu a pessoa jurídica que comandava oficialmente o clube.

Isso, porém, não significa necessariamente o fim da instituição. Outro grupo pode criar uma nova empresa, pedir filiação à federação e tentar retomar o clube. Dependendo das regras e do processo, também pode adquirir marcas, símbolos e outros bens da sociedade falida.

A nova empresa, no entanto, não se torna automaticamente a mesma pessoa jurídica. Também precisa do reconhecimento da FIGC (Federação Italiana) para disputar competições. Em geral, a antiga sociedade deixa de existir ou perde a filiação, enquanto a nova começa outra trajetória, muitas vezes nas divisões inferiores.

A crise do Brescia 

A crise do Brescia se agravou em 2025. A Procuradoria da FIGC denunciou a sociedade por irregularidades no recolhimento de impostos e contribuições previdenciárias relacionados aos salários de jogadores e funcionários.

O Tribunal Federal Nacional aplicou uma punição de oito pontos na temporada 2024/25. Mas a retirada de apenas quatro pontos foi suficiente para provocar o rebaixamento do clube da Serie B. Os quatro restantes seriam descontados na temporada seguinte. Massimo Cellino e o dirigente Edoardo Cellino também receberam seis meses de suspensão.

Imagem: Creative Commons

O Brescia, porém, não disputou a Serie C. Em julho de 2025, a Federação Italiana confirmou que o clube não havia cumprido todas as condições necessárias para receber a licença nacional e o excluiu da terceira divisão.

Nos meses seguintes, Cellino tentou apresentar alternativas para recuperar a sociedade, incluindo um plano de reestruturação e um acordo preventivo com os credores. As iniciativas não impediram a abertura da liquidação judicial em 28 de julho de 2026.

Com a decisão, um administrador judicial passou a cuidar do patrimônio da sociedade e da apuração dos valores devidos aos credores.

Fiorentina, Napoli, Parma e Palermo recomeçaram

A Fiorentina passou por uma situação semelhante em 2002. A antiga AC Fiorentina entrou em colapso financeiro e perdeu o direito de continuar nas principais divisões do país.

Uma nova sociedade foi criada com o nome Florentia Viola e começou na Serie C2, então a quarta divisão italiana. O clube também precisou abandonar temporariamente o nome e o uniforme completamente roxo.

Em 2003, o grupo liderado por Diego Della Valle pagou 2,5 milhões de euros em um leilão para recuperar o nome Fiorentina, as cores tradicionais e outros bens da antiga sociedade.

Escudo Fiorentina Viola. Imagem: Reprodução

O Napoli teve a falência decretada pelo Tribunal de Nápoles em agosto de 2004. A FIGC também revogou a filiação da antiga S.S. Calcio Napoli S.p.A. depois que o clube não comprovou os requisitos econômicos necessários para permanecer na Serie B.

Aurelio De Laurentiis criou o Napoli Soccer, nova sociedade autorizada a começar na Serie C1, então a terceira divisão. Posteriormente, o projeto recuperou o nome SSC Napoli e retornou à Serie A em 2007.

O Parma foi declarado falido em 19 de março de 2015, depois de uma crise marcada por dívidas e dificuldades para manter as atividades do clube.

Em julho do mesmo ano, sete empresários da região criaram o Parma Calcio 1913. A nova sociedade começou na Serie D e conquistou três acessos consecutivos, retornando à Serie A em 2018.

No caso do Palermo, a crise provocou inicialmente a exclusão da Serie B em julho de 2019. A antiga US Città di Palermo S.p.A. teve posteriormente a falência reconhecida e perdeu sua filiação na FIGC em outubro daquele ano.

Uma nova sociedade foi criada e recebeu autorização para disputar a Serie D de 2019/20. Assim como ocorreu nos outros casos, a camisa e a ligação com a torcida permaneceram, mas o projeto passou a funcionar por meio de outra pessoa jurídica.

Por que isso acontece tanto na Itália?

As falências não tiveram uma única causa. Cada clube tomou decisões próprias e passou por administrações diferentes. Os números da FIGC, porém, mostram que existe um desequilíbrio financeiro que atinge todo o sistema.

Entre as temporadas 1986/87 e 2024/25, 194 sociedades não foram admitidas nos campeonatos profissionais italianos por descumprimentos econômicos e financeiros. Apenas duas conseguiram reverter posteriormente a exclusão. (Relatório da FIGC). 

Em 17 anos analisados pelo ReportCalcio, os clubes das séries A, B e C acumularam perdas de 9,3 bilhões de euros. Dos 1.609 balanços examinados, 1.289, o equivalente a 80%, terminaram no prejuízo. (ReportCalcio 2025). 

O endividamento agregado chegou a 5,5 bilhões de euros na temporada 2023/24. Apesar de uma melhora recente nas receitas, o futebol profissional italiano ainda registrava perdas anuais superiores a 730 milhões de euros.

A situação é ainda mais perigosa nas divisões inferiores. Na Serie A, os custos trabalhistas correspondiam a 52% do valor produzido pelos clubes. A proporção chegava a 82% na Serie B e a 89% na Serie C.

Isso deixa pouca margem para suportar um rebaixamento, uma temporada sem acesso ou uma queda nas receitas. Os salários, impostos e demais compromissos continuam, enquanto a arrecadação diminui.

San Siro em 1963. Imagem: Creative Commons

A Itália tem 97 clubes profissionais, número menor apenas que o de cinco países analisados pela FIGC. Quanto mais equipes disputam esse espaço, maior também é o risco de problemas financeiros.

A situação dos estádios só piora o cenário. Entre 2007 e 2024, apenas seis novas arenas foram inauguradas no país. Além disso, somente 8% dos estádios usados no futebol profissional não pertenciam ao poder público. Uma das fragilidades do sistema segunda a Federação.

Recomeçar com outra sociedade ajuda a impedir que o futebol desapareça de uma cidade. Ao mesmo tempo, não transforma a falência em uma simples troca de nome. A empresa anterior deixa dívidas, credores e contratos rompidos, enquanto o novo projeto precisa recuperar seu espaço esportivo.

O Brescia agora enfrenta o mesmo desafio. A tradição pode e esperamos que sobreviva, mas a sociedade que carregou oficialmente o clube durante décadas chegou ao fim.

Diante do colapso financeiro que muitos clubes brasileiros vivem, a pergunta fica. O  que aconteceria se um gigante do nosso futebol quebrasse?

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