Vencer uma briga vale mais do que conquistar um título? Para um torcedor comum, a comparação pode até parecer absurda. Mas, no lado mais violento das torcidas organizadas, a resposta nem sempre é tão óbvia.
No último sábado (24), dentro de campo, Vasco e Corinthians se enfrentaram em um duelo de seis pontos na luta contra o rebaixamento. Os cariocas venceram por 3 a 2, mas, para integrantes da Força Jovem, há uma vitória contra os corintianos, ou melhor, contra os Gaviões da Fiel, que não aparece em nenhum site estatístico.
Quem acompanha os confrontos entre os clubes talvez já tenha reparado em uma faixa exibida por integrantes da organizada vascaína, com a escrita “Marginal Tietê 03/06/2009”. A data faz referência a uma briga entre torcedores dos dois times, ocorrida em São Paulo, que terminou com a morte de um corintiano de 27 anos.
Mesmo com o desfecho trágico, o episódio passou a ser tratado por integrantes da Força Jovem como motivo de comemoração e provocação aos rivais.
O que aconteceu em 3 de junho de 2009?
Naquela quarta-feira, Corinthians e Vasco disputavam uma vaga na final da Copa do Brasil. O time paulista havia vencido o jogo de ida por 1 a 0, no Maracanã, e receberia os cariocas no Pacaembu para decidir quem avançaria à decisão.
Um comboio de ônibus com torcedores vascaínos saiu do Rio de Janeiro em direção a São Paulo para acompanhar a partida. Na noite do jogo, quando passavam pela Marginal Tietê, perto da Ponte das Bandeiras, os torcedores foram surpreendidos por uma emboscada de integrantes de uma organizada corintiana.
Segundo a denúncia apresentada posteriormente pelo Ministério Público de São Paulo, membros da Gaviões da Fiel aguardavam os rivais dentro de um ônibus estacionado na pista auxiliar da avenida. Assim que os veículos com vascaínos chegaram, a briga começou.
Apesar de terem preparado a emboscada, os corintianos estavam em menor número e acabaram levando a pior no confronto. Parte deles tentou fugir e buscou abrigo no Clube Espéria, nas proximidades, onde vários envolvidos acabaram detidos.
Entre os torcedores estava Clayton Ferreira de Souza, de 27 anos, integrante da Gaviões da Fiel da Rua São Jorge. O corintiano foi encontrado gravemente ferido e não resistiu aos ferimentos.
Em agosto de 2010, o Ministério Público de São Paulo denunciou 17 torcedores corintianos por rixa qualificada pelo resultado morte. O crime envolve a participação em uma briga coletiva e, nesse caso, tem a pena agravada porque o confronto terminou com uma vítima fatal.
A emboscada no fim, contra vascaínos, terminou com uma única morte, de um corintiano.
Como surgiram as torcidas organizadas e suas rivalidades?
As torcidas organizadas nem sempre tiveram a fama de violentas. Os primeiros grupos surgiram no Brasil entre as décadas de 1930 e 1940, quando torcedores se reuniam para levar bandeiras, tocar instrumentos e organizar o apoio aos times.
No fim dos anos 1960, surgiram organizadas mais independentes, que também passaram a cobrar dirigentes e protestar contra os resultados. Nas décadas seguintes, esses grupos cresceram, assim como os confrontos entre alguns de seus integrantes.
O sociólogo Bernardo Buarque de Hollanda, pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV), estudou como a violência passou a influenciar até mesmo a distribuição de poder dentro das organizadas.
Em entrevista ao UOL, em 2013, ele descreveu a divisão da Força Jovem do Vasco em núcleos territoriais conhecidos como “famílias”. Esses grupos tinham suas próprias lideranças e podiam agir com certa autonomia, inclusive na organização de confrontos.
Segundo o pesquisador, dentro de determinados grupos, havia integrantes responsáveis por planejar as brigas e outros que participavam diretamente delas, conhecidos como “de pista”. A disposição para enfrentar adversários passou a pesar nas disputas de poder, não apenas diante das torcidas rivais, mas também entre os próprios grupos da organizada.
As viagens pelo Campeonato Brasileiro também aproximaram torcidas de diferentes estados. Visitantes recebiam hospedagem, transporte e apoio de grupos locais, e algumas dessas amizades acabaram se transformando em alianças.
Foi o caso da Força Jovem do Vasco e da Mancha Verde, do Palmeiras. Segundo Claudinho, ex-presidente da organizada vascaína, a relação ficou forte nos anos 1980, quando torcedores do Vasco ajudaram palmeirenses durante uma situação envolvendo o Flamengo.
A amizade entre pequenos grupos cresceu e passou a envolver as duas organizadas. Como o Palmeiras já mantinha uma rivalidade histórica com o Corinthians, as disputas entre torcidas paulistas também passaram a envolver integrantes da Força Jovem.
Por que vencer uma briga pode valer tanto?
Para alguns grupos, o prestígio não depende apenas dos resultados do clube. Existe uma disputa própria, que envolve reputação, território, alianças e a capacidade de enfrentar adversários.
É a lógica das chamadas “vitórias na pista”. O resultado dessas brigas pode ser lembrado durante anos, especialmente quando envolve grupos de grande rivalidade.
Mesmo com o Corinthians classificado no Pacaembu, integrantes da Força Jovem passaram a reivindicar o confronto da Marginal Tietê como uma vitória sobre os rivais, e enfrentar um grupo adversário em sua própria cidade pode representar ainda mais força.
Outras brigas e punições
O confronto de 2009 não foi o único envolvendo as organizadas de Vasco e Corinthians. Em 2013, os grupos voltaram a brigar no Estádio Mané Garrincha, em Brasília. Após a confusão, a Gaviões da Fiel foi proibida de entrar identificada nos estádios do Distrito Federal por dois anos.
A Força Jovem também recebeu punições severas. Após uma sequência de confrontos com torcedores do Athletico-PR, Flamengo e Fluminense, ficou três anos impedida de utilizar uniformes, bandeiras e faixas nos estádios, até retornar em 2017. Na época, era a maior suspensão já aplicada a uma torcida organizada no Brasil.
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