Um vazamento fornecido a WIRED revela como funciona um grupo de golpes conhecido como “pig butchering” dentro de um complexo criminoso, com documentação interna que soma 4.200 páginas de mensagens. O material mostra uma rotina de trabalho e coerção em um ambiente dedicado a fraudes envolvendo investimentos em criptomoedas.
A testemunha, identificada como Mohammad Muzahir, enviou os arquivos enquanto ainda estava preso no complexo da operação, no norte de Laos. O local, chamado por especialistas de Boshang, funciona como uma rede de golpes que promete romance e riqueza, mas transfere grandes somas aos enganadores e deixa vítimas com prejuízos que chegam a milhões de dólares.
Amani, um supervisor do grupo, orientava trabalhadores a manter uma comunicação otimista com as vítimas. As mensagens indicam que a força de trabalho era monitorada de perto e sujeita a penalidades por atrasos, falhas ou desvios de conduta. Faltas podiam resultar em multas elevadas, retirada de alimentos ou suspensão de benefícios.
O registro detalha uma rotina de 15 horas de turno noturno, em um prédio de alto padrão no Triângulo Dourado, região de organização criminosa na fronteira entre países. A maioria dos trabalhadores era recrutada de áreas empobrecidas da Ásia e da África e mantida sob controle por meio de dívidas e retenção de passaportes.
O esquema envolvia contas, chats e procedimentos para manter a ilusão de legitimidade. Trabalhadores criavam perfis falsos, descreviam atividades diárias e registravam as interações com vítimas em várias plataformas. Os gerentes avaliavam o desempenho e orientavam sobre como manter a narrativa de riqueza fictional.
Mudanças de tema: uso de inteligência artificial e vídeo falsificado
Entre os materiais, há relatos de uso de ferramentas de IA para sustentar as fraudes. Trabalhadores eram treinados para gerar respostas em chats com vítimas e para realizar chamadas de vídeo com rostos gerados por deepfake, usando fotos roubadas para representar personas falsas. Um espaço denominado sala de IA acomodava esse recurso sob demanda.
As mensagens indicam ainda que os golpes eram planejados para explorar vulnerabilidades emocionais. Técnicas de romance ficcional e táticas para convencer as vítimas a enviar grandes quantias eram frequentes, com guias que sugerem como preprocessar a vítima para aceitar transferências em criptomoedas.
A fuga de Muzahir envolveu confrontos com os supervisores, envio de mensagens de coerção e, eventualmente, a saída do país. Ele descreveu tratamento físico abusivo, privação de alimento e tentativas de coação para permanecer em atividade. O caso levanta questões sobre direitos humanos e tráfico de pessoas na região.
O contexto regional aponta Laos como um ponto de operação para redes de golpe que atuam de forma quase clandestina, com influência de redes criminais que dificultam a fiscalização. Pesquisadores destacam que o ambiente de negócios local pode facilitar a permanência dessas atividades, mesmo diante de incidentes pontuais de repressão.
A operação de Muzahir teria se movido, segundo relatos, para Camboja, com base em mensagens de ex-colegas. Parte do grupo estaria estabelecida na cidade de Chrey Thom, onde filtros de segurança e redes criminosas favorecem a continuidade das fraudes. As autoridades locais têm registrado operações de fiscalização, mas o grupo parece ter conseguido manter a atividade de recrutamento.
A percepção de especialistas é de que esses complexes operacionais impõem um controle total sobre os trabalhadores, que vivem sob o mito de uma oportunidade legítima. A narrativa de oficina comum contrasta com as condições de trabalho degradantes e o uso de dívidas para manter a subordinação.
Este caso reforça a necessidade de cooperação internacional em políticas de combate a fraude financeira e exploração laboral. A reportagem completa sobre as conversas vazadas, as técnicas utilizadas e a evolução da operação está disponível na cobertura da WIRED, com informações adicionais de pesquisadores e autoridades consultados pela reportagem.
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