Ben Roberts-Smith, capitão australiano condecorado, foi formalmente indiciado por cinco acusações de homicídio, ocorridas durante operações no Afeganistão. O militar apareceu por videoconferência em um tribunal de Sydney nesta sexta-feira, pela primeira vez desde a divulgação das acusações. O inquérito envolve suspeitas de mortes de prisioneiros desarmados, além de supostos atos de intimidação e encobrimento.
Segundo documentos judiciais obtidos pela BBC, as acusações incluem a morte de um preso afegão com deficiência, bem como o empurrão de um prisioneiro algemado de um penhasco. Também há alegações de instrução a recrutas para executar outros detidos, em prática de iniciação chamada “blooding”, e de plantar itens nos alvos para mascarar abusos.
Roberts-Smith, de 47 anos, nega as acusações. Seu advogado afirma tratar-se de território jurídico inédito na Austrália, país que, até o momento, não sediou um julgamento por crimes de guerra.
Os fatos citados ocorreram em diferentes episódios entre 2009 e 2012, quando Roberts-Smith integrava a Força de Defesa Australiana (ADF) e atuava em operações no Afeganistão. Em 12 de abril de 2009, no cénario do poço de Tarin Kowt, a equipe SAS supostamente matou dois homens, incluindo um com perna prostética.
As acusações detalham ainda violência contra Ali Jan, detido em Darwan, em 11 de setembro de 2012, incluindo agressões físicas e a suposta execução de um homem após ser levado a um barranco. Testemunhas alegam que Roberts-Smith participou das ações e, posteriormente, coordenou a encenação de cenas de morte.
A defesa contesta a veracidade de parte das evidências, enquanto investigadores apontam padrões que ligam as mortes a operações sob controle da ADF, com vítimas handcuffed e sem combates ativos no momento.
Entre as provas mencionadas estão relatos de testemunhas que afirmam ter participado das execuções sob a direção ou com a conivência de Roberts-Smith. O Ministério Público sustenta que as mortes ocorreram em contextos de controle da operação e sem confronto com inimigos.
Roberts-Smith deixou as funções ativas em 2012 e a ADF encerrou seu vínculo em 2015, após receber uma condecoração de serviço distinto. Em 2018, sua figura foi associada a suspeitas de crimes de guerra, levando a um processo de difamação no qual ele negou as acusações.
O tribunal concedeu a Roberts-Smith fiança sob condições estritas durante a audiência de sexta-feira, com o magistrado Greg Grogin advertindo que o julgamento pode levar anos para ocorrer. O caso deve seguir para o rito processual, com aguardada apreciação de novas provas.
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