A enchente repentina perto da fronteira do Nepal com o Tibete que matou dezenas de pessoas nesta quarta-feira (26) pode ter sido causada pelo desprendimento da parte inferior de uma geleira, que despencou no fundo do vale, centenas de metros abaixo. A avaliação é de especialistas que se basearam em imagens de satélite da Planet […]
A enchente repentina perto da fronteira do Nepal com o Tibete que matou dezenas de pessoas nesta quarta-feira (26) pode ter sido causada pelo desprendimento da parte inferior de uma geleira, que despencou no fundo do vale, centenas de metros abaixo. A avaliação é de especialistas que se basearam em imagens de satélite da Planet Labs.
Ainda não está claro o que provocou o colapso da geleira. Autoridades nepalesas citam como possibilidade um terremoto registrado na região poucos minutos antes do desastre.
Governos dos dois lados da fronteira temem que o número de vítimas seja bem maior do que os quase 100 corpos recuperados até agora. Segundo o governo do Nepal, mais de 300 viajantes continuam desaparecidos.
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Imagens de satélite de antes e depois do evento, fornecidas pela Planet Labs, mostram a encosta antes coberta de vegetação agora soterrada por detritos e sedimentos marrons.
“Está confirmado que uma parte substancial da ponta da geleira desabou, desencadeando o evento — provavelmente incluindo ou arrastando uma quantidade considerável de rochas e sedimentos”, disse Vikram Gupta, especialista em geologia de engenharia e professor da Universidade de Sikkim, na Índia.
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O cientista da Terra Dan Shugar, professor associado da Universidade de Calgary, no Canadá, disse que as imagens parecem indicar o derretimento de um grande volume de neve nas 24 horas anteriores à tragédia.
“Algumas das geleiras do vale estavam cobertas de neve ontem e hoje estão, em sua maioria, com o gelo à mostra. Portanto, em outras palavras (e ainda não vi nenhum dado de estações meteorológicas), provavelmente estava quente”, disse ele.
Shugar afirmou ainda que, pelas imagens de satélite obtidas na manhã desta quarta pela Planet Labs, a parte inferior de uma geleira se desprendeu a cerca de 5.200 metros de altitude e caiu no fundo do vale, aproximadamente 1.200 metros mais abaixo. Ele disse que obras na região também podem ter contribuído para o desastre e que um eventual papel das mudanças climáticas ainda será investigado.
Um levantamento da Organização das Nações Unidas divulgado em 2023 apontou que as montanhas nevadas do Nepal perderam quase um terço de seu gelo em pouco mais de três décadas por causa do aquecimento global. A ONU informou ainda naquele ano que as geleiras do país, situado entre dois grandes emissores de carbono, Índia e China, derreteram 65% mais rápido na última década do que na anterior.
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Avalanche de gelo e rocha
Diversos projetos hidrelétricos estão instalados nas áreas mais atingidas, no distrito montanhoso de Rasuwa, que tem cerca de 50 mil habitantes.
A Agência Nacional de Redução e Gestão de Riscos de Desastres do Nepal informou que a inundação de origem glacial atingiu o rio Lhende após um deslizamento de terra ocorrido a cerca de 20 quilômetros a nordeste de um posto de fronteira entre o Nepal e a China.
Relatos iniciais indicavam que um terremoto na região teria desencadeado uma avalanche e, na sequência, as enchentes. Por outro lado, o geólogo da agência nepalesa Prakash Pokharel afirmou que ainda não é possível confirmar essa causa.
“As enchentes repentinas foram causadas por uma avalanche de gelo e rochas no lado nepalês”, disse Pokharel, que analisou as imagens da Planet Labs.
O Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas afirma que enchentes, deslizamentos, avalanches e secas têm se tornado mais frequentes e intensas em toda a região do Hindu Kush-Himalaia, e que as mudanças aceleradas na água, no solo e no ar representam uma ameaça significativa à população local.
A entidade informou nesta quarta-feira que a enchente gerou uma forte onda de água, sedimentos e pedras pelos sistemas fluviais dos rios Bhote Koshi e Trishuli. Segundo o centro, o nível da água no rio na região de Galchhi, mais a jusante, teria subido até nove metros em 30 minutos.
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