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Onda democrata derrota aliados de Trump e muda Congresso dos EUA

Partido vence em redutos republicanos, conquista Câmara e Senado e desafia governabilidade de Trump nos dois últimos anos de mandato

Congresso dos Estados Unidos | Reprodução/Wikipedia
Congresso dos Estados Unidos | Reprodução/Wikipedia

Os democratas conquistaram o controle do Senado e da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos nas eleições de meio de mandato realizadas nesta terça-feira (3), impondo uma derrota histórica ao presidente Donald Trump e ao Partido Republicano. A vitória foi impulsionada pelo descontentamento dos eleitores com o custo de vida, a guerra contra o Irã e a condução do governo americano.

A chamada onda democrata atingiu até estados tradicionalmente republicanos, que haviam apoiado Trump em sua reeleição presidencial, em 2024. O resultado representa uma mudança significativa no cenário político dos Estados Unidos e deve dificultar a atuação do presidente durante os dois últimos anos de seu mandato.

Entre os resultados mais surpreendentes estão as vitórias democratas no Kansas, que não elegia um senador do partido desde a Grande Depressão, na década de 1930, e no Texas, um dos principais redutos republicanos do país.

Os democratas também conquistaram uma cadeira no Senado pela Carolina do Sul, estado onde Trump havia vencido por quase 18 pontos percentuais na eleição presidencial de 2024.

A partir de janeiro de 2027, quando os novos congressistas assumirem seus cargos, Trump terá de governar com a oposição controlando as duas Casas do Legislativo.

O que muda para Trump com a vitória democrata?

A principal consequência das eleições será o fim do controle republicano sobre o Congresso, que, durante os dois primeiros anos do segundo mandato de Trump, raramente utilizou seus poderes para contrariar o presidente.

Com a nova composição, os democratas poderão abrir investigações sobre o governo Trump, seus familiares e aliados, além de exigir negociações e concessões para aprovar projetos considerados importantes pela Casa Branca.

O controle do Senado também dará aos democratas poder para bloquear indicações feitas pelo presidente a cargos que dependem da aprovação da Casa. Isso inclui eventuais nomeações para a Suprema Corte dos Estados Unidos, caso surja uma vaga no tribunal.

O resultado também deve intensificar as disputas internas no Partido Republicano pela sucessão de Trump. Pela Constituição americana, o presidente não pode disputar um terceiro mandato.

Com a eleição presidencial de 2028 se aproximando, possíveis sucessores poderão buscar maior protagonismo político, reduzindo a influência de Trump sobre o partido.

“Há agora uma reformulação geracional do mapa do Senado que vai mudar os Estados Unidos”, afirmou Chuck Schumer, líder democrata no Senado.

“Os norte-americanos votaram pela mudança, e agora os democratas devem cumprir o prometido”, acrescentou.

Democratas vencem em estados historicamente republicanos

A dimensão da vitória democrata ficou evidente nos resultados de estados que, durante décadas, favoreceram candidatos republicanos.

No Kansas, os democratas conquistaram uma cadeira no Senado pela primeira vez em quase um século. A mudança também apareceu em regiões rurais e agrícolas, tradicionalmente associadas ao eleitorado conservador.

No condado de Seward, onde funciona uma das maiores unidades de processamento de carne bovina dos Estados Unidos e cerca de metade dos eleitores aptos a votar são hispânicos, o democrata Adam Hamilton liderava o senador republicano Roger Marshall por 13 pontos percentuais.

A diferença representa uma mudança expressiva em relação à eleição presidencial de 2024, quando Trump venceu no mesmo condado por 39 pontos.

Na Carolina do Sul, os democratas derrotaram Darline Graham, candidata escolhida por Trump após a morte de seu irmão, o senador Lindsey Graham, no início de 2026.

O estado havia dado ao presidente uma vantagem de quase 18 pontos percentuais dois anos antes.

Já no Texas, os democratas encerraram uma longa sequência de derrotas, conquistando uma cadeira no Senado e o governo estadual.

A democrata Gina Hinojosa derrotou o governador republicano Greg Abbott, que estava em seu terceiro mandato, e se tornará a primeira governadora latina do Texas.

A disputa pelo Senado também terminou em derrota para Ken Paxton, procurador-geral estadual apoiado por Trump em detrimento do democrata James Talarico.

Republicanos que se afastaram de Trump também perderam

A insatisfação dos eleitores não atingiu apenas candidatos diretamente apoiados pelo presidente. No Maine, a senadora republicana Susan Collins perdeu a disputa pela reeleição, encerrando uma trajetória de 30 anos no Senado.

Durante a campanha, Collins procurou destacar sua independência política e a disposição de contrariar Trump em determinadas questões.

A estratégia, porém, não foi suficiente para garantir sua permanência no cargo.

Em Michigan, o democrata progressista Abdul El-Sayed foi eleito o primeiro muçulmano a conquistar uma cadeira no Senado americano.

Nascido em Michigan e de origem egípcia, ele derrotou Mike Rogers, ex-deputado federal e ex-agente do FBI que recebeu o apoio de Trump.

Durante a campanha, Rogers tentou associar falsamente o adversário ao extremismo religioso.

“Vocês escolheram o ódio, e Michigan escolheu a esperança”, declarou El-Sayed aos apoiadores após a vitória.

As disputas pelo Senado no Mississippi e no Alasca ainda não haviam sido definidas na madrugada desta quarta-feira (4).

Custo de vida e guerra contra o Irã pesaram na eleição

A economia esteve no centro da campanha democrata. Os candidatos do partido responsabilizaram as tarifas comerciais adotadas pelo governo Trump e a guerra contra o Irã pelo aumento do custo de vida nos Estados Unidos.

Também exploraram denúncias e questionamentos sobre os ganhos financeiros obtidos pela família do presidente desde seu retorno à Casa Branca.

Os republicanos, por sua vez, concentraram parte de sua campanha em temas ligados a disputas culturais e ideológicas, incluindo os direitos das pessoas trans.

Trump e seus aliados procuraram apresentar os democratas como políticos radicais e extremistas.

Entretanto, as pesquisas realizadas durante a campanha indicavam que os eleitores estavam mais preocupados com questões econômicas.

A insatisfação atingiu diferentes grupos sociais e regiões do país.

Segundo dados compilados pela Reuters e pelo jornal USA Today, os republicanos perderam apoio na grande maioria dos cerca de 1.700 condados onde a maior parte dos votos havia sido contabilizada até a noite de terça-feira.

Os democratas avançaram tanto em regiões mais ricas quanto nas mais pobres, além de conquistar apoio em localidades com diferentes níveis de escolaridade.

Os ganhos foram especialmente expressivos em áreas com forte presença de eleitores latinos, incluindo condados da fronteira do Texas que haviam aumentado seu apoio a Trump em 2024.

Democratas também dominam disputas pela Câmara

Além das vitórias no Senado, os democratas tiveram desempenho expressivo nas eleições para a Câmara dos Representantes, equivalente à Câmara dos Deputados no sistema político brasileiro.

O partido venceu todas as 20 disputas consideradas especialmente competitivas que já haviam sido decididas até o momento.

O resultado também representou um revés para a estratégia republicana de redesenhar distritos eleitorais para aumentar as chances de vitória de seus candidatos.

Apesar das mudanças nos mapas eleitorais, os democratas conseguiram manter a maioria das cadeiras que os republicanos tentavam conquistar.

Com isso, o partido assegurou o controle da Câmara e ampliou sua capacidade de fiscalizar o governo federal.

Trump reconhece derrota, mas diz que venceria se estivesse na disputa

As eleições de meio de mandato são realizadas na metade do mandato presidencial americano e costumam funcionar como uma avaliação do governo em exercício.

Embora o nome do presidente não apareça nas cédulas, o resultado pode fortalecer ou enfraquecer sua capacidade de governar. Trump participou ativamente da campanha republicana e realizou dezenas de comícios nas semanas anteriores à votação.

Em vários eventos, pediu aos apoiadores que votassem como se ele próprio estivesse concorrendo.

“Finjam que eu estou na cédula”, repetiu durante a campanha.

Na noite de terça-feira, quando a derrota republicana se tornou evidente, Trump publicou uma mensagem nas redes sociais:

“Eu não estava na cédula eleitoral e, se estivesse, teríamos vencido POR MAIORIA ESMAGADORA! Obrigado pela atenção a este assunto.”

Apesar da declaração, o presidente reconheceu o resultado eleitoral.

Em entrevista à Fox News, parabenizou os democratas pelas vitórias e afirmou estar disposto a trabalhar com a oposição em determinados assuntos, incluindo imigração. Ao mesmo tempo, ameaçou vetar projetos de lei que considerasse “insanos”.

O reconhecimento do resultado ocorreu em meio a preocupações de democratas sobre a possibilidade de Trump tentar contestar a votação, como aconteceu após sua derrota na eleição presidencial de 2020.

Eleições também tiveram resultados históricos

Além da mudança no controle do Congresso, as eleições produziram resultados inéditos em diferentes estados americanos.

Na Geórgia, a democrata Keisha Lance Bottoms tornou-se a primeira mulher negra eleita governadora de um estado dos Estados Unidos.

Na Flórida, o republicano Byron Donalds venceu a disputa pelo governo estadual, tornando-se o primeiro governador republicano negro do país.

No Texas, Gina Hinojosa foi eleita a primeira governadora latina do estado.

Já na Califórnia, o democrata Xavier Becerra será o primeiro governador latino.

*Com informações da Reuters

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