Andreja Rustj costuma responder “três” quando perguntam quantos filhos tem. Dois, porém, morreram ainda durante a gestação. Um tinha 16 semanas, outro 8. Foram abortos espontâneos, e as despedidas ocorreram no período mais duro do isolamento da Covid-19, quando hospitais proibiam visitas. A dor também veio com a distância da família e dos amigos na […]
Andreja Rustj costuma responder “três” quando perguntam quantos filhos tem. Dois, porém, morreram ainda durante a gestação. Um tinha 16 semanas, outro 8.
Foram abortos espontâneos, e as despedidas ocorreram no período mais duro do isolamento da Covid-19, quando hospitais proibiam visitas. A dor também veio com a distância da família e dos amigos na Eslovênia. Há dez anos, ela vive na Alemanha com o marido e o filho, Jakob, mudando de cidade em cidade.
O luto já é solitário por natureza e não age da mesma forma em todas as pessoas. É individual, sem roteiro, sem prazo e sem comparação. No caso de Andreja, o processo também veio sem abraço e sem presença. As mudanças frequentes ainda dificultaram a criação de amizades duradouras. “Se eu não me desse bem com meu marido, teria sido muito difícil”.
Ela relata que o marido sustentou a casa quando ela não conseguia sustentar a si mesma. Nos primeiros dias após as perdas, ele cuidou de Jakob, assumiu tarefas domésticas e filtrou ligações, porque ela não queria falar com ninguém. A conversa voltou aos poucos, primeiro com a irmã, depois com a melhor amiga e também com o padre Dori, que a ligou várias vezes.
A família visita com frequência o cemitério e, segundo Andreja, não trata as duas perdas como um assunto encerrado. “Essas duas crianças fazem parte de nossas vidas. Acima de tudo, elas me deram um senso de propósito em ajudar aqueles que estão sofrendo”.
Transformando o silêncio em palavras
Esse propósito reapareceu quando ela passou a acompanhar pacientes em clínicas alemãs e conheceu mulheres que enfrentavam o mesmo tipo de perda. Estar diante daquela dor, era inevitavelmente pessoal. “Como eu já havia passado por essas duas experiências, foi difícil de certa forma, mas, por outro lado, o Espírito Santo claramente queria que eu estivesse lá.”
Andreja foi procurar palavras e ferramentas para apoiar melhor quem estava na mesma travessia. Quase não encontrou. Da falta de material nasceu o livro Luto Silencioso. Ela afirma que escreveu pensando nas mulheres, mas também nos familiares e nas pessoas próximas.
Ela afirma que escrevernão foi simples. Era íntimo demais, exposto demais. “Foi muito difícil no começo porque é um tema muito íntimo. As emoções, a culpa e a dúvida sobre o que deu errado estão presentes. É muito difícil compartilhar toda essa intimidade”. O que a empurrou foi o que ela chama de “silêncio aterrador”, aquele silêncio que vem depois da notícia e se espalha pela casa, com a sensação de que o mundo continua correndo, enquanto por dentro tudo fica parado.
Respostas para a dor
A maioria dos abortos espontâneos ocorre no primeiro trimestre, quando muitas mulheres ainda não anunciaram a gravidez. Ela comenta sobre o entorno quando a perda acontece, as frases prontas, que não acolhem. Muitas mulheres ouvem declarações como “A natureza sempre sabe o que é certo”, “Pelo menos você sabe que pode engravidar” ou, pior ainda, de pessoas religiosas, “Deus já sabe o que está fazendo”. Segundo Andreja, essas respostas machucam tanto que muitas mães acabam escolhendo o silêncio.
Rustj diz que, dentro de casa, o apoio precisa ser concreto, especialmente dos esposos: “Que ouçam, abracem, compreendam que é difícil, doloroso e pode levar muito tempo”, Lembra também que nem sempre o cuidado é de mão única. “Às vezes, a situação pode se inverter completamente. É importante que nos permitamos vivenciar o luto à nossa maneira e que saibamos como pedir ajuda.”
Religião e espiritualidade
Ela descreve uma relação “dinâmica” com Deus e admite que chegou a se revoltar por não conseguir ter outro filho. Com o tempo diz ter encontrado sentido na experiência. “Encontrei significado. Não estou zangada.”
A vontade de entender culturas e crenças também sempre guiou Andreja. Desde a época em que era escoteira, ela buscou viver de perto diferentes comunidades e aprendeu que, para ser aceita, precisava conviver e trabalhar com as pessoas. Essa postura a levou a experiências com esquimós, ao voluntariado em países como Bósnia, Camboja e Albânia, e a períodos de imersão em espaços religiosos variados, como templos budistas, retiros hindus, mosteiros e até uma comunidade monástica (monges).
Depois de anos, concluiu que, no essencial, as pessoas são parecidas: querem amor, bondade e alegria, e protegem quem amam. No trabalho com pessoas vulneráveis, que realiza desde jovem, diz ter aprendido sobre humildade e sobre como a vida pode virar “em um instante”. Para ela, o tempo não apaga a dor: ele apenas ensina a conviver com ela.
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