As fortes chuvas que atingem a Zona da Mata mineira transformaram Juiz de Fora e Ubá em cenários de destruição, luto e buscas ininterruptas. O número de mortos subiu para 40, enquanto 27 pessoas seguem desaparecidas, segundo o balanço mais recente divulgado para a região. Em Juiz de Fora, foram registradas 34 mortes. Em Ubá, […]
As fortes chuvas que atingem a Zona da Mata mineira transformaram Juiz de Fora e Ubá em cenários de destruição, luto e buscas ininterruptas. O número de mortos subiu para 40, enquanto 27 pessoas seguem desaparecidas, segundo o balanço mais recente divulgado para a região.
Em Juiz de Fora, foram registradas 34 mortes. Em Ubá, o total chegou a seis vítimas.
A tragédia se agravou nas últimas horas com a localização de novos corpos em áreas atingidas por deslizamentos e soterramentos. Em Juiz de Fora, cinco vítimas foram encontradas durante a madrugada nos bairros Paineiras, Esplanada e Vila Ideal, pontos que concentram parte do impacto dos temporais. As buscas continuam em terrenos instáveis, com lama profunda e risco de novos desabamentos.
Entre as vítimas, os relatos reforçam o tamanho da devastação. Uma técnica de enfermagem foi resgatada com vida após permanecer mais de 15 horas sob os escombros, mas não resistiu. Também morreu um policial penal que tentava salvar a esposa e outros moradores de um prédio atingido. Histórias como essas se repetem em meio a uma operação que mobiliza bombeiros, Defesa Civil e voluntários.
Além das mortes e desaparecimentos, o temporal provocou colapso em serviços e infraestrutura. Em Juiz de Fora, foram registradas quase 800 ocorrências, a maior parte ligada a escorregamentos de talude, ameaça de deslizamento e alagamentos. Cerca de mil pessoas seguem sem energia elétrica no município, segundo o balanço local informado até esta quarta-feira.
O impacto social também é amplo. Relatos de autoridades e reportagens apontam milhares de pessoas fora de casa e evacuações em áreas de risco, com famílias transferidas para abrigos e locais seguros. A Associated Press informou cerca de 3 mil deslocados e a retirada de centenas de famílias de áreas vulneráveis, em meio ao avanço da lama e ao temor de novos deslizamentos. A agência também registrou que Juiz de Fora acumulou volume de chuva acima do padrão de fevereiro, com índice próximo ao dobro da média mensal.
Cidade vulnerável e risco conhecido
A tragédia reacende um dado que chama atenção em Juiz de Fora. Segundo levantamento do Cemaden reproduzido por veículos locais, o município é o 9º do país com maior população vivendo em áreas de risco para deslizamentos, enchentes e enxurradas.
O recorte aponta 540.756 habitantes na cidade, sendo 128.946 moradores em áreas vulneráveis, o equivalente a 23,7% da população. Em termos práticos, isso significa que quase um em cada quatro moradores vive em locais mais expostos a eventos extremos.
Em uma cidade marcada por relevo acidentado, ocupação em encostas e histórico de chuvas intensas, temporais de grande volume se convertem rapidamente em desastre humanitário.
Buscas continuam sob risco de mais chuva
O trabalho de resgate segue em áreas críticas, mas o cenário meteorológico ainda preocupa. A previsão indica continuidade de chuva em Juiz de Fora nos próximos dias, com alertas severos ativos do Inmet. O sistema meteorológico aponta alerta vermelho para acumulado de chuva até sexta-feira à noite, além de alertas para chuvas intensas e risco de alagamentos, transbordamentos e deslizamentos.
A recomendação das autoridades é que moradores de áreas de risco acompanhem os avisos oficiais, evitem deslocamentos desnecessários e acionem a Defesa Civil diante de qualquer sinal de movimentação de encosta, rachaduras, estalos ou elevação repentina do nível da água.
Prevenção entra no centro do debate
No meio da resposta emergencial, cresce a cobrança por prevenção. Dados citados por reportagens nesta quarta-feira, com base no Portal da Transparência de Minas Gerais, apontam queda expressiva nos gastos estaduais com infraestrutura de combate e resposta aos impactos das chuvas, de cerca de R$ 134,8 milhões em 2023 para R$ 5,8 milhões em 2025.
É importante separar os planos. A apuração sobre orçamento e execução de despesas exige detalhamento técnico das rubricas para identificar exatamente o que foi cortado, remanejado ou reclassificado. Ainda assim, a diferença de valores passou a ocupar o centro do debate público no momento em que a Zona da Mata enfrenta uma das piores tragédias recentes.
Diante de mortos, desaparecidos e milhares de desabrigados, a pergunta se impõe. Quantas vidas ainda precisarão ser perdidas para que prevenção, drenagem, contenção de encostas, monitoramento e habitação segura deixem de ser promessa e se tornem prioridade contínua?
Enquanto essa resposta não vem, Juiz de Fora e Ubá seguem contando vítimas, procurando desaparecidos e tentando atravessar mais um dia de chuva.
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