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A Hard Day’s Night das livrarias

A Noite das Livrarias, que acontece hoje, é mais do que um evento simpático: é um lembrete de que formar leitores ainda é uma forma concreta de criar gente menos manipulável, menos rasa e mais legal.

Noite das livrarias. Imagem: assessoria.

Começo este texto com uma história pessoal, para ilustrar e, sim, tentar cativar a sua atenção para um tema que pouco engaja: a importância da literatura. Minhas filhas mais velhas, Nina e Lola, deviam ter 6 e 4 anos. Ou 7 e 5. Tanto faz. Peguei um livro que sabia ser cativante – Extraordinário, de […]

Começo este texto com uma história pessoal, para ilustrar e, sim, tentar cativar a sua atenção para um tema que pouco engaja: a importância da literatura.

Minhas filhas mais velhas, Nina e Lola, deviam ter 6 e 4 anos. Ou 7 e 5. Tanto faz. Peguei um livro que sabia ser cativante – Extraordinário, de R.J. Palacio – e que conta a história de um garoto nascido com deformação facial e de como ele conduz, com leveza, sua integração social. Combinei com elas que toda noite leríamos juntos um capítulo. Lá pela terceira noite, elas já pediram para aumentarmos para dois ou três. E foi quando saquei que tinham sido tocadas pela mágica que a leitura proporciona.

Até hoje, uma dúzia de anos depois, não existe elas não estarem lendo algo. O vício pegou no caçula, Gael, que fará 11 anos no domingo, dia 26, e há uns bons três anos não tem data comemorativa com presente em que ele não peça livros.

Digo tudo isso com o orgulho devido para chegar ao tema deste texto. Na verdade, há dois temas, e, como não é uma reportagem, posso me dar o direito de fazer uma curva antes de chegar ao centro.

O primeiro é tentar promover, modestamente, A Noite das Livrarias, que acontece hoje. A ação nasceu da articulação de livreiros ligada ao Mapa das Livrarias de Rua, ganhou escala nacional e chega a esta edição com 86 livrarias confirmadas em cerca de 30 cidades, com programação gratuita e simultânea em vários estados e no Distrito Federal. É uma ideia simples, mas inteligente: manter as livrarias abertas à noite e devolver a elas aquilo que elas nunca deveriam ter perdido – a condição de espaço vivo, e não de mera prateleira com CNPJ.

O que me agrada no evento não é só a pauta, mas o espírito. Não é uma cruzada promocional de shopping para vender capuccino, caneca e desconto. É uma tentativa de lembrar que livraria de rua pode ser uma pequena usina cultural. Um lugar em que ainda se pode esbarrar numa conversa, num autor, numa lombada inesperada, numa ideia que não estava no roteiro. A inspiração veio de experiências como a Noche de las Librerías, de Buenos Aires. A “Noite das Livrarias” brasileira aposta justamente nessa circulação entre estantes, lançamentos, leituras, saraus, oficinas, clubes de leitura e encontros silenciosos.

Num país em que quase tudo virou ruído, velocidade e opinião emitida antes da compreensão, eu tendo a olhar com simpatia automática para qualquer iniciativa que convide as pessoas a desacelerar e entrar numa livraria. Não porque isso torne alguém superior. Livro não santifica ninguém. Mas porque a literatura costuma operar no sentido contrário da brutalização corrente. Ela complica. E eu digo isso como elogio.

E aqui chegamos ao segundo tema, que é a importância de cultivarmos o gosto por livros em nossos filhos – e em todos os que pudermos influenciar. Tenho uma convicção antiga a esse respeito, e ela só se fortalece com o tempo: pessoas que amam livros não são facilmente enganadas nem facilmente manipuladas. E eu, pelo menos, quase nunca vi um amante verdadeiro da literatura despencar para o lado fascista da coisa sem antes ter abandonado o melhor do que leu.

Não falo isso como slogan de professoral. Falo como quem olha em volta. Quem lê de verdade aprende cedo que o mundo é mais complexo do que a caricatura. Aprende que o outro existe. Aprende que há dor em lugares improváveis, contradição em quase toda biografia, sombra onde o discurso binário prometia luz limpa. Livro bom não alisa o cérebro. Livro bom cria rebeldia.

É claro que existe também um ganho mais visível, mais prático, menos filosófico. Ler cedo amplia vocabulário. E vocabulário não é enfeite. Vocabulário é ferramenta de pensamento. A criança que aprende a lidar com mais palavras passa a lidar melhor com o mundo. Consegue nomear o que sente, o que deseja, o que teme, o que percebe. Sai daquela névoa em que tudo vira só irritação, impulso ou birra. Quem domina mais palavras costuma dominar melhor a própria experiência. E quem articula melhor a experiência fica um pouco menos à mercê dos outros.

Mas não é só isso. Livro também é laboratório de alteridade. A criança entra na vida dos personagens antes mesmo de saber direito como administrar a própria. Sofre com eles, ri com eles, teme com eles, torce com eles. Vai vivendo mil vidas sem sair do lugar. Isso treina empatia de um jeito que nenhuma fala edificante consegue treinar sozinha. Literatura não dá sermão: infiltra humanidade.

Há ainda um ponto que, para mim, pesa muito neste tempo de telas nervosas. Ler exige permanência. Exige demora. Exige um pequeno pacto de silêncio com algo que não vai piscar, vibrar nem pedir sua atenção a cada 15 segundos. Em outras palavras: ler treina foco profundo. E foco profundo virou artigo de luxo. A leitura precoce ensina a sustentar atenção, a mergulhar, a atravessar páginas sem recompensa instantânea. Parece pouco. Não é. Talvez seja uma das formas mais eficazes de resistência mental disponíveis hoje.

E tem mais. O livro instala na criança uma espécie de motor interno. A percepção de que a dúvida pode ser perseguida, de que o tédio pode ser rompido, de que há sempre uma passagem possível entre não saber e descobrir. O grande benefício da leitura não é só o conteúdo que ela entrega. É a sensação de que o desconhecido não é uma parede. É uma porta. Isso muda tudo. Muda a relação com estudo, com linguagem, com curiosidade, com autonomia. Muda até a postura diante da própria vida.

Por isso insisto tanto nesse assunto. Estimular a leitura não é apenas empurrar alguém para a alfabetização ou para a boa formação escolar. É oferecer mapa e bússola antes que a estrada fique tomada por gente interessada em vender atalho, mentira e histeria. É aumentar a chance de que aquela criança, mais adiante, não seja apenas espectadora da própria vida nem presa fácil de qualquer grito ideológico bem embalado.

Talvez por isso as livrarias ainda me pareçam tão importantes. Porque elas são, em escala modesta e quase sempre heroica, um antídoto contra o rebaixamento geral. Defendem a bibliodiversidade onde o mercado pede repetição. Defendem permanência onde tudo virou fluxo. Defendem conversas onde quase tudo virou monólogo. E defendem inteligência sem alarde, que é uma coisa cada vez mais rara.

Então sim: acho que a Noite das Livrarias merece ser celebrada. Não só porque movimenta o setor, o que já seria motivo suficiente. Mas porque lembra uma verdade simples que andamos negligenciando: formar leitores é uma ação cultural, política e até moral no melhor sentido da palavra. Não moralista. Moral. Diz respeito ao tipo de pessoa e de sociedade que queremos ajudar a produzir.

Fecho com uma pequena curadoria de alguns destaques de hoje (em SP, cidade onde moro. Confira tudo aqui). Não para esgotar a noite, mas para sugerir boas portas de entrada:

  • Livraria Megafauna, no Copan: leitura de Hamlet com Bruna Beber, Celsim, Maria Manoella e Mika Lins.
  • Gato sem Rabo, na Vila Buarque: encontro literário sobre Toni Morrison, organizado pela professora Maria Carolina Cassati.
  • Banca Tatuí, em Santa Cecília: oficina de serigrafia fosforescente.
  • Livraria da Vila, na Paulista: Slam das Minas, em batalha de poesias.

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