O Brasil alcançou, em 2025, o maior número de acidentes e mortes no trabalho já registrado. Foram 806 mil ocorrências e 3.644 óbitos ao longo do ano, segundo levantamento da Secretaria de Inspeção do Trabalho, ligada ao Ministério do Trabalho e Emprego. Os dados mostram uma tendência preocupante. Desde o impacto da pandemia, quando houve […]
O Brasil alcançou, em 2025, o maior número de acidentes e mortes no trabalho já registrado. Foram 806 mil ocorrências e 3.644 óbitos ao longo do ano, segundo levantamento da Secretaria de Inspeção do Trabalho, ligada ao Ministério do Trabalho e Emprego.
Os dados mostram uma tendência preocupante. Desde o impacto da pandemia, quando houve queda nos registros em 2020, os números voltaram a crescer de forma consistente. Em cinco anos, os acidentes aumentaram mais de 65%, enquanto as mortes subiram cerca de 60%.
No acumulado da última década, o cenário é ainda mais expressivo: mais de 6,4 milhões de acidentes e 27 mil mortes, além de centenas de milhões de dias de trabalho perdidos — seja por afastamentos temporários ou por impactos permanentes na vida dos trabalhadores.
Apesar da redução na taxa proporcional de acidentes em relação ao número de empregados formais, o aumento absoluto revela um desequilíbrio: o mercado de trabalho cresce, mas as condições de segurança não acompanham esse avanço.
A distribuição dos casos pelo país também evidencia desigualdades. Estados mais industrializados, como São Paulo, concentram o maior volume de ocorrências, refletindo o tamanho da economia. Já regiões com menor número de registros apresentam um problema diferente: acidentes menos frequentes, porém mais graves.
Em alguns estados, como Mato Grosso, o risco é ainda mais elevado. O estado combina alta incidência com níveis de mortalidade acima da média nacional, especialmente em atividades ligadas ao agronegócio, transporte e obras de infraestrutura.
O recorte por setor ajuda a entender onde estão os maiores riscos. A área da saúde lidera em número de acidentes, impulsionada pela grande quantidade de profissionais e pela pressão sobre o sistema. Já o transporte rodoviário de cargas aparece como o mais letal, com milhares de mortes acumuladas na última década.
Quando o olhar se volta para as profissões, o contraste se mantém: técnicos de enfermagem estão entre os que mais sofrem acidentes, enquanto motoristas de caminhão concentram o maior número de mortes — uma média superior a uma por dia ao longo de dez anos.
A construção civil também segue entre os setores mais perigosos, com altos índices tanto de acidentes quanto de fatalidades, especialmente em atividades de maior risco, como montagem industrial e grandes obras.
O perfil dos acidentes também mudou ao longo do tempo. Embora a maioria ainda ocorra durante o exercício da atividade profissional, os acidentes de trajeto vêm ganhando espaço. Já as doenças ocupacionais tiveram um pico atípico durante a pandemia, especialmente entre profissionais da saúde.
Outro movimento relevante é o aumento da participação feminina. Hoje, as mulheres representam mais de um terço dos casos registrados, com crescimento significativo ao longo dos últimos anos, principalmente em setores de serviços e saúde.
Para especialistas, os dados reforçam um alerta antigo: sem investimento consistente em prevenção e melhoria das condições de trabalho, o crescimento econômico tende a cobrar um preço alto.
No fim, os números traduzem um problema estrutural — um país que gera emprego, mas ainda falha em garantir que seus trabalhadores voltem para casa em segurança.
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