Os jovens brasileiros passaram anos sonhando em contruir carreira de modo semelhante. O projeto era claro: trabalhar no mercardo corporativo, adquirir experiência, conhecimento e contatos. Só então, perto da aposentadoria, abririam algum negócio. Para uma parcela crescente dos jovens brasileiros, essa ordem está sendo invertida. Em vez de buscar a primeira vaga no mercado formal, […]
Os jovens brasileiros passaram anos sonhando em contruir carreira de modo semelhante. O projeto era claro: trabalhar no mercardo corporativo, adquirir experiência, conhecimento e contatos. Só então, perto da aposentadoria, abririam algum negócio.
Para uma parcela crescente dos jovens brasileiros, essa ordem está sendo invertida.
Em vez de buscar a primeira vaga no mercado formal, muitos estão começando a vida profissional diretamente como donos do próprio negócio. O movimento acontece justamente em um momento em que o desemprego no país está próximo dos menores níveis da série histórica, mas em que boa parte das oportunidades disponíveis oferece salários considerados pouco atrativos para as novas gerações.
Os números ajudam a mostrar essa transformação. Levantamento do Sebrae revela que o total de empreendedores com até 29 anos aumentou em quase 800 mil pessoas entre 2012 e 2025, alcançando 4,897 milhões de jovens donos de negócios.
Outro exemplo é o de Ana Clara Souza. Aos 22 anos, ela transformou um hobby em negócio ao começar a vender produtos artesanais pela internet durante a pandemia. Com o aumento da demanda nas redes sociais e nos marketplaces, decidiu formalizar a atividade. Hoje, administra uma pequena operação de comércio eletrônico, emprega quatro pessoas e atende clientes em diferentes estados do país.
“Nunca me passou pela cabeça ter um emprego formal, com carteira assinada”, afirmou.
Escolaridade e tecnologia impulsionam mudança
O perfil do jovem empreendedor brasileiro também mudou ao longo dos últimos anos.
Dados do Sebrae mostram que a participação de pessoas com ensino superior incompleto ou mais entre os empreendedores de até 29 anos passou de 14,1% para 27,8% entre 2012 e 2025. O grupo se tornou o segundo mais representativo entre os jovens empresários, atrás apenas daqueles com ensino médio completo.
Segundo o presidente do Sebrae, Rodrigo Soares, o avanço da escolaridade e o acesso cada vez mais amplo à tecnologia ajudam a explicar esse fenômeno. As ferramentas digitais reduziram custos de operação, facilitaram o acesso ao conhecimento e permitiram que novos empreendedores iniciassem atividades sem a necessidade de grandes investimentos.
“A pesquisa mostra que os jovens estão empreendendo, e aí existe um fator muito importante que é o aumento da escolaridade”, afirma.
Empreendedorismo é impulsionado por falta de acesso ao mercado de trabalho
Mas a expansão do empreendedorismo não está relacionada apenas à busca por autonomia.
Os dados também indicam que parte dos jovens encontra dificuldades para ingressar no mercado formal de trabalho.
Segundo o IBGE, a taxa de desemprego entre pessoas de 18 a 24 anos caiu de 16,1% para 13,8% entre 2012 e 2025. Apesar da redução, o percentual continua mais que duas vezes superior ao observado entre adultos.
A falta de experiência profissional ainda aparece como uma das principais barreiras para quem tenta conquistar a primeira oportunidade.
Ao mesmo tempo, muitos jovens avaliam que os salários oferecidos no início da carreira não correspondem às expectativas de renda e crescimento profissional.
Para o economista José Ronaldo Souza, CEO da Quantivis Analytics, essa percepção ajuda a impulsionar o empreendedorismo.
“Com mais informação sobre cultura empreendedora, identificam um hiato entre o que o empregador ganha e o que paga ao trabalhador, ou entre os salários iniciais e o que avaliam que poderiam ganhar com base em resultados. Então decidem tomar um atalho por meio de um negócio próprio, com maior flexibilidade”, afirmou.
Segundo ele, as novas ferramentas digitais reduziram significativamente as barreiras para quem deseja empreender.
Os desafios por trás da autonomia
Apesar do crescimento do número de jovens empreendedores, a realidade está longe de ser simples.
O estudo do Sebrae mostra que aproximadamente dois terços deles ainda atuam na informalidade. Além disso, quatro em cada dez são responsáveis pelo sustento da família.
Os rendimentos também variam bastante. No fim de 2025, jovens que trabalhavam por conta própria registravam renda média mensal de R$ 2.576, valor 30,5% inferior ao observado entre empreendedores acima dos 30 anos.
Por outro lado, a formalização faz diferença significativa. Jovens que possuem CNPJ apresentam rendimento 156% superior ao daqueles que permanecem informais.
“Se me formalizo, a chance de minha empresa crescer e a renda melhorar é maior, porque eu consigo ter mais crédito, além de acesso a consultorias”, afirma Rodrigo Soares.
O que os jovens buscam mudou
Uma pesquisa do Instituto Locomotiva para o CIEE ajuda a entender por que a carreira tradicional perdeu parte do apelo entre as novas gerações.
Entre os 8,8 mil jovens entrevistados, a oportunidade de crescimento profissional apareceu como o fator mais importante na escolha de uma ocupação, sendo mencionada por 54% dos participantes.
O salário ficou em segundo lugar, com 43%.
Questões como saúde mental, qualidade do ambiente de trabalho, flexibilidade e possibilidade de atuar de forma remota ou híbrida também ganharam relevância.
A primeira empresa antes do primeiro emprego
Entre os jovens empreendedores, as mulheres representam 36,5% do total.
Uma delas é a arquiteta Rafaella Alcoforado. Seu primeiro contato com o empreendedorismo aconteceu ainda na faculdade, quando criou com amigas uma loja virtual de adereços para arrecadar dinheiro para o carnaval.
A iniciativa fez sucesso e vendeu para diferentes estados brasileiros.
“Foi ali, comprando material e montando os adereços, que entendi que queria empreender. Foi a virada de chave para mim”.
Depois da formatura, ela decidiu abrir um escritório de arquitetura ao lado de uma sócia. O faturamento médio do negócio gira em torno de R$ 12 mil por mês.
Sua trajetória ilustra uma mudança que se espalha pelo mercado de trabalho brasileiro. Para um número crescente de jovens, a primeira experiência profissional já não começa com uma contratação. Começa com um CNPJ.
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