- Pesquisadores sugerem criar a categoria “autismo profundo” para pessoas com pouca ou nenhuma fala, QI abaixo de 50 e necessidade de supervisão 24 horas, aplicável a crianças a partir de oito anos.
- Em estudo australiano com 513 crianças avaliadas entre 2019 e 2024, cerca de 24% atenderiam ou teriam risco de atender aos critérios da categoria.
- Quase metade apresentou comportamentos de risco, como tentativa de fuga, e houve alta incidência de autoagressão (22,5%) e agressão a terceiros (38,2%), ainda que isso ocorra em crianças fora da categoria.
- A definição pode não corresponder exatamente aos níveis oficiais de suporte e financiamento, gerando ajustes necessários em guias clínicos e na elegibilidade de recursos.
- Principais preocupações: possível necessidade de reavaliações repetidas devido à faixa etária de oito anos e a relação entre a categoria e as diretrizes de financiamento, além da importância de linguagem inclusiva para não estigmatizar indivíduos.
Em pesquisa publicada pelo Lancet, especialistas internacionais propõem uma nova categoria denominada “autismo profundo”. O conceito descreve indivíduos com pouca ou nenhuma linguagem, QI abaixo de 50 e necessidade de supervisão 24 horas por dia. O alvo seriam crianças a partir de oito anos, quando habilidades cognitivas e de comunicação tendem a estabilizar.
O estudo, realizado a partir de dados de 513 crianças autistas atendidas em serviços públicos de diagnóstico na Austrália entre 2019 e 2024, aponta que cerca de 24% atendem ou correm risco de atender aos critérios de autismo profundo. A pesquisa também investiga características comportamentais que distinguem esse grupo.
Uma das motivações para a criação da categoria é instrumentalizar governos e serviços na hora de planejar apoios. A ideia é evitar que pessoas com maiores necessidades sejam negligenciadas e, ao mesmo tempo, reduzir lacunas na representatividade na pesquisa sobre autismo.
A pesquisa australiana também revela que quase metade das crianças apresentaram comportamentos de risco à segurança, como tentativas de fuga, em comparação com 31,2% de outras crianças autistas. Mesmo assim, cerca de 22,5% praticaram autoagressão e 38,2% mostraram agressividade.
Entre os impactos, os investigadores destacam que a definição de autismo profundo nem sempre corresponde aos níveis oficiais de diagnóstico que guiam o suporte financeiro. Alguns casos de risco e de nível de apoio não se alinharam com o mapeamento das etapas de financiamento.
Os autores destacam dificuldades práticas. A idade média de diagnóstico em serviços públicos é de cerca de 6,6 anos, o que levanta a preocupação de que a inclusão da categoria possa exigir reavaliações posteriores em muitas famílias, aumentando a demanda por serviços.
Outro ponto discutido é a adaptação necessária das diretrizes de avaliação e de financiamento, pois a nova definição não correspondia exatamente aos critérios de nível 3 de suporte. Ainda assim, os pesquisadores defendem que a categoria pode oferecer um modo mensurável de descrever necessidades extremas.
Para a implementação clínica, os autores sugerem linguagem inclusiva para evitar reduzir a percepção de outras necessidades dos autistas. A inclusão da categoria em diretrizes nacionais de avaliação poderia facilitar o planejamento de recursos por parte de governos, serviços de deficiência e profissionais de saúde.
O artigo também orienta famílias a buscar reconhecimento das necessidades de apoio. Recomenda-se esclarecer comportamentos que afetam a segurança e a vida diária, além de buscar suporte para cuidadores e planejar medidas de segurança e de interação com serviços de saúde, educação e assistência social.
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