- Estudos mostram que a restauração de ecossistemas pode, no curto prazo, aumentar o risco de doenças zoonóticas em algumas regiões, especialmente com a colonização inicial de roedores em paisagens perturbadas.
- O desmatamento e mudanças no uso do solo elevam o contato entre humanos e animais transmissores de doenças; no Brasil, pesquisadores observaram que mosquitos passaram a se alimentar com mais frequência de pessoas à medida que os hospedeiros naturais ficaram escassos.
- Já a restauração de áreas úmidas reduziu imediatamente a transmissão de zoonoses, possivelmente porque aves e peixes retornam mais rápido do que grandes mamíferos, ajudando a controlar vetores como mosquitos.
- A tendência de longo prazo é de que ecossistemas voltem a um equilíbrio com o retorno de animais de grande porte, mas esse processo pode levar anos ou décadas e ainda é pouco acompanhável pela pesquisa atual.
- O estudo reuniu dados limitados de diferentes regiões e criou o Living Evidence Atlas para compilar evidências e orientar novas pesquisas, reforçando a importância da abordagem One Health para saúde humana, animal e ambiental.
A restauração de habitats, embora essencial para a biodiversidade e o clima, pode, em alguns locais, elevar temporariamente o risco de certas zoonoses. Pesquisadores sinalizam que o processo de reflorestamento pode aumentar o contato entre humanos e animais portadores de doenças.
Um estudo de meta‑análise liderado por Adam Fell, da Universidade de Stirling, reuniu centenas de trabalhos, casos e relatórios. Foram identificadas evidências contextuais de que a recuperação de florestas eleva, no curto prazo, a transmissão de zoonoses em determinadas situações.
A hipótese é de que roedores se destacam entre os primeiros colonizadores de áreas perturbadas, levando ao aumento de zoonoses como hantavírus. Em contrapartida, a restauração de áreas alagadas reduziu a transmissão quase que de imediato, segundo os pesquisadores.
Mecanismos e explicações
Animais como aves e peixes podem retornar mais rapidamente a ecossistemas úmidos, contribuindo para o controle de alguns vetores, como mosquitos. Observações indicam que peixes podem consumir ninfas e larvas de mosquitos na água, diminuindo a transmissão.
O estudo destaca que a resposta é fortemente dependente do contexto local, incluindo espécies presentes, tempo de recuperação e espécies substitutas que retornam ao ecossistema. Lacunas de dados dificultam avaliar efeitos de longo prazo.
A equipe criou o Living Evidence Atlas, um repositório que compila dados existentes e facilita novas pesquisas. A ferramenta pretende ampliar a cobertura geográfica, frequentemente limitada a países ricos, para entender melhor a relação entre degradação, exposição humana e zoonoses.
Olhar estratégico e limitações
O trabalho enfatiza a importância de integrar a saúde humana, animal e ambiental nas decisões de manejo ambiental, linha do conceito One Health. Especialistas ressaltam que avanços nesse campo ainda são modestos, sobretudo após a pandemia de COVID-19.
Coautora Luci Kirkpatrick, da Bangor University, enfatiza que a conservação inteligente ajuda a manter ecossistemas saudáveis e, por consequência, a proteger populações humanas. As descobertas reforçam a necessidade de monitoramento amplo durante a restauração.
O estudo também aponta limitações geográficas, com grande parte da evidência vinda de países desenvolvidos. Isso evidencia a urgência de mais pesquisas em contextos de maior vulnerabilidade, onde a conexão entre degradação, exposição e doenças é mais comum.
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