- Em fevereiro de 2020, as cheias atingiram o vale de Treherbert e Pentre, revelando falhas na gestão florestal e infraestrutura local.
- A floresta, dominada por avelaneiras desde a mineração, era controlada pela Natural Resources Wales, que executou corte de árvores para cumprir normas, gerando críticas de moradores.
- Um movimento liderado por Chris Blake, com Welcome to Our Woods, propôs cogestão da floresta: uma gestão compartilhada 50‑50 entre a comunidade e a NRW, privilegiando manejo gradual e contínuo.
- Ao longo de dezoito meses de diálogo, o grupo defendeu manejo por desbastes contínuos (continuous cover) em vez de desmates totais, para conservar habitat e criar empregos locais na madeira.
- Em 2024, parte da madeira foi incinerada para energia, enquanto projetos como um galpão de madeira e cursos de bem-estar na natureza sinalizam um novo caminho de ocupação comunitária e sustentabilidade na região.
Foi em fevereiro de 2020 que a vila de Treherbert, no Vale de Rhondda, enfrentou uma inundação severa causada por um inverno chuvoso. A água, acumulada nos morros da região, invadiu ruas e moradias, deixando moradores com água até os joelhos. A região, marcada pela história de mineração, já apresentava florestas densas de larca plantadas para suportar minas.
Antes da enchente, as encostas eram geridas de forma restritiva, com o público autorizado a entrar apenas em áreas geridas pela Natural Resources Wales (NRW), que substituiu a Forestry Commission em 2013. A retirada de árvores gerou críticas entre moradores, que temiam os danos causados pela fúria das máquinas e pela lógica de manejo voltada para o lucro.
Após o incidente, ficou claro que o modelo tradicional de gestão não atenderia às necessidades da comunidade. A população local passou a defender uma participação direta na gestão das florestas, buscando uma abordagem que garantisse uso público e preservação ecológica a longo prazo.
Co-gerência e planejamento
Eis que surge o componente central da transformação: a Skyline, projeto de ativismo fundiário de Chris Blake, em parceria com a Welcome to Our Woods. A iniciativa propõe um plano de co-gerência com a NRW, a fim de que moradores participem ativamente do manejo florestal. Ao longo de 10 reuniões, a comunidade e os representantes da NRW discutiram formas de dividir responsabilidades de forma igualitária.
O ponto de conflito recorrente foi a possibilidade de realizar desbaste constantemente, em vez de um corte amplo de árvores. Os moradores, liderados por Ian Thomas, defenderam a continuidade do manejo por meio de desbaste anual, mantendo parte da floresta disponível ao público e evitando o esgotamento completo dos recursos. O conceito sugerido é o desbaste contínuo, comum em regiões alpinas, que exige planejamento de décadas para manter a floresta produtiva.
Ao final de 18 meses de negociações, a NRW comprometeu-se a atuar em blocos ao longo de uma década, reduzindo conflitos com a comunidade. Richard Phipps, da NRW, assumiu o papel de apresentar o plano de recursos florestais, prometendo maior cooperação com as comunidades locais e uma gestão que priorize a participação pública.
Resultados, impactos e caminhos futuros
Em 2022, o consenso foi apresentado em Treherbert, com a expectativa de que a gestão do bosque passe a combinar desbaste seletivo e participação comunitária. Ainda assim, a implementação prática exigiria ações consistentes nos próximos anos para que a parceria se torne rotina.
Hoje, a região abriga iniciativas que vão além do manejo de madeira. A timber roundhouse, construída com madeira Rhondda, simboliza a possibilidade de transformar a madeira local em infraestrutura comunitária. Em frente, o espaço acolhe projetos de educação ambiental, bem-estar na natureza e aprendizados de carpintaria verde, promovidos pela Welcome to Our Woods em colaboração com Black Mountains College.
As obras também visam impulsionar a economia local: a ideia é criar uma fábrica de processamento de madeira, empregos locais e uso da madeira para construção, além de transformar prédios ociosos do centro da vila em centros de educação, bem-estar e turismo sustentável. Enquanto isso, a gestão pública continua pública, com a floresta ainda sujeita a políticas nacionais, mas com participação comunitária mais robusta.
Treherbert, assim, é lembrada como a primeira vila no País de Gales a garantir um acordo com o governo para compartilhar decisões sobre o uso da terra. O movimento serve como referência para outras comunidades pós-industriais, mostrando que é possível combinar proteção ambiental com benefício econômico local, sem abrir mão da participação cidadã.
Entre na conversa da comunidade