- Em Botswana, ações de manejo comunitário e monitoramento de leões reduziram conflitos entre rebanhos e predadores, invertendo uma queda de 2013 quando cerca de 30 leões foram mortos por comunidades.
- O programa CLAWS usa coleiras de GPS, alerta rápido por celular e manejo tradicional de pastoreio para evitar ataques a gado e reduzir perdas.
- A sobrevivência dos filhotes melhorou: entre 2014 e 2017 apenas about um terço atingia a vida adulta; hoje cerca de 70% dos filhotes sobrevivem, contribuindo para um aumento de 50% na população de leões no norte de Okavango nos últimos quatro anos.
- Foi criado o primeiro gado certificado como Wildlife-Friendly Beef, com venda inicial de 14 animais em maio, a um prêmio de 10% acima do preço de mercado, abastecendo lodges de safari.
- A meta é expandir o programa para mais comunidades e, se possível, remover parte de cercas veterinárias que dificultam migrações de animais, mantendo o manejo de pastoreio como estratégia central.
O re honey: Botswana mostra como manejo de gado mais inteligente pode salvar leões e reabrir corredores de vida silvestre. Os leões do norte do país vinham morrendo após serem atraídos por iscas envenenadas deixadas por moradores descontentes, que viram o predador atacar o gado nas áreas do Delta do Okavango. Ao fim de 2013, cerca de 30 leões foram mortos em um único ano, representando mais da metade da população da região.
Mais de uma década depois, a situação mudou radicalmente. A população de leões se recuperou, a sobrevivência dos filhotes aumentou e as perdas de gado caíram consideravelmente. O resultado vem de anos de trabalho: resgate de práticas tradicionais de manejo, monitoramento de leões com colares, rastreamento de movimento e, recentemente, a criação de um mercado para carne de vida silvestre criada de forma respeitosa com o ecossistema. O modelo é visto como referência para áreas da África Austral onde práticas de pastejo modernas entraram em choque com o predador.
“Pode ser adaptado em praticamente qualquer lugar”, afirma Andrew Stein, fundador da CLAWS Conservancy, organização baseada no Botswana. Nos últimos 25 anos, mais da metade dos leões sumiram do continente, em grande parte por conflitos com comunidades humanas. Hoje, a maior população contínua da região vive no KAZA TFCA, área transfronteiriça que abrange Angola, Botswana, Namíbia, Zâmbia e Zimbábue.
Um sistema de alerta para leões
Em 2014, ao identificar que muitos acreditavam que todos os leões eram iguais, Stein e a equipe iniciaram o Lion Alert System, um programa pioneiro de alerta precoce. Leões recebem colares com GPS e as informações são enviadas automaticamente a moradores locais via celular quando a fera é detectada perto de áreas habitadas ou de rebanhos. A ferramenta permite agir antes de um ataque, reunindo o gado em piquetes ou ajustando o manejo das pastagens.
Outra estratégia envolve reconhecer os animais pelos nomes em línguas locais, buscando fortalecer o vínculo entre a população e as espécies. “É crucial que a decisão sobre a vida dos animais esteja nas mãos das comunidades”, explicou Stein, citando exemplos de nomes que refletem respeito ou aversão aos predadores.
Do abandono de práticas ao manejo comunitário
A queda de práticas de manejo direto dos rebanhos contribuiu para o aumento de conflitos. Quando menos jovens acompanhavam o gado para escoltar os animais, a mudança alimentou a tensão entre moradores e o leão. Hoje, cerca de 24 jovens participam do programa de manejo compartilhado de gado em três vilarejos, aprendendo sobre ecologia de pastagens, pastoreio rotativo e cuidados veterinários básicos.
À noite, o grupo monta corujas de lona em cercas circulares para proteger o gado. Com o gado protegido, os leões costumam se afastar. O programa também envolve os agricultores com treinamento contínuo, além de reduzir perdas de gado de forma expressiva: nos últimos cinco anos, o máximo de animais perdidos caiu para cerca de 10, ante dezenas ou centenas antes.
Impacto na viabilidade econômica e preservação
Um dos maiores avanços é a criação de uma demanda de mercado para o gado criado sob práticas que evitam o pastoreio excessivo e que não promovem ataques a leões. Em maio, a CLAWS realizou a venda inaugural de 14 animais como Wildlife-Friendly Beef, com preço premium de cerca de 10% acima do mercado rural, adquirido por lodges de safári no delta. A meta é realizar vendas trimestrais de cerca de 15 animais ao longo do ano.
A expectativa é ampliar o programa para a maioria do gado da região, o que permitiria retornar a um pastoreio rotativo mais disseminado, com melhoria das pastagens e, consequentemente, de a carne do gado ser mais valorizada no mercado. O objetivo é que o programa se torne autossustentável.
Barreiras a vencer e o papel das cercas veterinárias
Paralelamente, há um movimento para reduzir as cercas veterinárias que cortam o Delta do Okavango. Construídas na década de 1950 para impedir a transmissão de doenças, as cercas dificultam a migração de animais e o fluxo de vida silvestre. Estudos indicam que a remoção de trechos específicos pode ocorrer sem aumentar o risco de doenças, desde que acompanhada de manejo adequado de gado.
O esforço para derrubar parte dessas cercas depende de demonstrar a capacidade das comunidades em adotar o manejo tradicional com apoio de programas de vacinação e monitoramento. Em cenário ideal, as primeiras seções poderiam ser removidas nos próximos cinco anos, conforme análises e evidências apresentadas por especialistas.
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