- Estudo publicado em janeiro na revista Wildlife Research mostra como conhecimento indígena (ICEK) e ciência ocidental podem ajudar a conservar o quati-do-norte (Dasyurus hallucatus) na Austrália.
- O trabalho foi liderado por membros do povo Martu, com sessões de troca de conhecimento chamadas ninti entre anciãos, cientistas e a comunidade Martu.
- Os Martu relatam que o quati-do-norte era comum na região, mas seu declínio ocorreu no último século, atribuído a predadores introduzidos e à alteração de práticas de queima tradicional.
- Um ponto central é a gestão de incêndios tradicional, que em mosaico favorece a conservação de habitat; mudanças nessa prática contribuíram para a perda de hábitats.
- As zonas lideradas pelos rangeres Martu, vinculados à Kanyirninpa Jukurrpa, são consideradas a “última fortaleza continental” para o quati-do-norte, e o apoio de saberes indígenas é visto como essencial para o futuro da espécie.
A conservação do quati-do-norte, o *wiminyji*, ganhou um novo impulso ao integrar conhecimento indígena com métodos científicos ocidentais. O estudo, publicado em janeiro na revista Wildlife Research, reuniu líderes Martu, cientistas e a comunidade local para mapear a espécie na região ocidental do deserto australiano.
Conduzido por membros do povo Martu, o trabalho enfatizou o uso do conhecimento cultural para entender a distribuição histórica do quati-do-norte na região. Os pesquisadores destacaram que, segundo relatos dos anciãos, a espécie era comum no território Martu, com declínio acentuado nas últimas décadas.
A equipe envolveu uma ranger indígena gerida pela Kanyirninpa Jukurrpa (KJ), instituição que coordena programas sociais, culturais e ambientais para os Martu. O estudo foi liderado por Muuki Taylor e contou com a participação de outras rangers da KJ, além de colaboradores do DBCA, órgão público de biodiversidade e atrações naturais.
Durante sessões de compartilhamento de saberes, chamadas de ninti, Martu anciãos e cientistas debateram a presença histórica do wiminyji e destacaram que mudanças no manejo do fogo teriam contribuído para a queda da população. As discussões seguiram protocolos culturais para facilitar o consentimento e a compreensão mútua.
Uma das constatações centrais envolve a gestão do fogo tradicional. Registrou-se que, quando práticas queimadas foram interrompidas com a expansão colonial, houve alterações no habitat que favoreceram a diminuição dos quatis. A restauração de queimas mosaico é apontada como prática benéfica à biodiversidade local.
O estudo também ressalta o papel de predadores introduzidos e da tolice de estratégias de fogo em áreas com grandes reservas de combustível. Especialistas citam que, além das pressões de espécies invasoras, incêndios de alta intensidade reduzem alimento e abrigo, elevando a vulnerabilidade de fauna nativa.
Os autores destacaram que o wiminyji permanece em áreas de manejo Martu, onde a população parece mais estável. O trabalho sugere que a integração de saberes tradicionais com ciência moderna pode sustentar ações de conservação mais eficazes a longo prazo.
Especialistas externos que acompanharam o estudo ressaltaram a importância de incluir versões em língua indígena para ampliar a compreensão da comunidade local. Eles destacaram também que a participação de rangeres indígenas fortalece a gestão de áreas remotas, muitas vezes inacessíveis a equipes externas.
O artigo aponta ainda que o Martu território é visto como um dos últimos refúgios de ampla distribuição do quati-do-norte no continente, frente à pressão de espécies invasoras como o sapo-cururu, liberado na Austrália nas décadas de 1930. A proteção depende do contínuo apoio a risers indígenas e à cooperação com autoridades de ciência.
Os autores indicam que o trabalho serve de modelo para futuras parcerias entre comunidades indígenas e pesquisa científica, com resultados que ajudam a entender melhor a dinâmica da espécie e a planejar estratégias de manejo do fogo, restauração de habitat e controle de espécies invasoras.
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