- Estudo da Fiocruz, publicado no The Lancet, analisa mais de 6 milhões de crianças de 1 a 5 anos, entre 2007 e 2017, e mostra que cada 1°C acima de 26°C eleva a chance de desnutrição infantil.
- Calor excessivo esteve ligado a 10% mais chance de baixo peso, 8% para desnutrição aguda e 8% para desnutrição crônica.
- Os efeitos não são imediatos: baixo peso e desnutrição aguda aparecem entre zero e três semanas após a exposição; atraso no crescimento surge com exposição contínua ao calor.
- Indígenas apresentam maior vulnerabilidade, com 6,72% abaixo do peso e 26,65% com atraso no crescimento; entre crianças pretas, 5,86% tinham desnutrição aguda e 9,32% atraso no crescimento.
- Desigualdades socioeconômicas amplificam os riscos, especialmente no Norte e Nordeste, em áreas rurais e entre filhos de mães indígenas e pretas; recomenda-se monitoramento nutricional e políticas multissetoriais.
O calor extremo pode ampliar o risco de desnutrição entre crianças brasileiras, aponta estudo inédito da Fiocruz publicado no The Lancet. A pesquisa analisou dados de mais de 6 milhões de crianças de 1 a 5 anos, coletados entre 2007 e 2017 em todo o país. O estudo associa cada aumento de 1°C acima de 26°C a maiores chances de desnutrição infantil.
Conduzido pelo Cidacs, da Fiocruz Bahia, o trabalho mostra que o calor aumenta em 10% a probabilidade de baixo peso, 8% de desnutrição aguda e 8% de desnutrição crônica. Pesquisadoras ressaltam que temperaturas elevadas mudam a percepção do calor de simples desconforto para fator determinante da saúde infantil.
Para Priscila Ribas, uma das autoras, os efeitos não são imediatos: o baixo peso e a desnutrição aguda surgem entre zero e três semanas após exposição. A baixa estatura aparece semanas depois, associada à exposição contínua ao calor.
Impactos por grupo e regiões
O estudo aponta diferenças entre grupos. Meninas apresentam maior ocorrência de baixo peso e desnutrição aguda, enquanto o atraso no crescimento é mais frequente entre meninos. O cenário mais crítico foi entre crianças indígenas, com alta vulnerabilidade nutricional.
Entre crianças pretas, foram identificados índices relevantes de desnutrição aguda e de atraso no crescimento. Regiões Norte e Nordeste, áreas rurais e filhos de mães indígenas e pretas apresentam maiores riscos, segundo a pesquisa.
Desafios e políticas públicas
Os autores destacam que o calor interage com desigualdades socioeconômicas, ampliando vulnerabilidades. A pesquisa sugere monitoramento nutricional mais intenso durante períodos de calor intenso e após eles, além de políticas multissetoriais.
A recomendação aponta para ampliar programas sociais em regiões mais afetadas e promover adaptação climática com equidade. A pesquisadora enfatiza que o Brasil pode liderar políticas públicas que protejam o desenvolvimento infantil em cenários de aquecimento global.
Perspectivas para o futuro
Os resultados indicam que períodos prolongados de calor podem reduzir a produtividade agrícola, elevar o custo alimentar e reduzir a diversidade nutricional. O estudo reforça a necessidade de políticas de proteção social e de infraestrutura para mitigar impactos locais.
A Fiocruz reforça que o tema requer ações coordenadas entre saúde, educação, assistência social e meio ambiente. A expectativa é de que novas estratégias reduzam as desigualdades e protejam a alimentação infantil diante das mudanças climáticas.
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