- O bagre dorado realiza a migração de ida e volta de cerca de 7.000 milhas, a mais longa jornada de água doce do mundo, desovando nas nascentes do rio Amazonas e voltando aos Andes.
- As larvas viajam milhares de quilômetros rio abaixo até o estuário, onde se alimentam e crescem, antes de retornar aos Andes para reprodução.
- Barragens hidrelétricas e a fragmentação dos rios estão dificultando o acesso aos locais de desova, causando quedas populacionais acentuadas.
- Brasil propôs e assinou ontem um plano de ação internacional na Convenção para a Conservação de Espécies Migratórias, apoiada pela ONU, para manter rios conectados e proteger o dorado e outras seis espécies de bagres migratórios, com a participação de seis países.
- O plano reconhece a importância econômica e cultural das espécies migratórias para milhões de pessoas na região amazônica, destacando a necessidade de cooperação regional, avaliações de impacto e intervenções como escadas para peixes em barragens.
O peixe conhecido como bagre dorado, de até 1,80 m, realiza a migração de água doce mais longa do mundo, percorrendo cerca de 7.000 milhas ida e volta. A jornada começa nas nascentes do rio Amazonas, nos Andes, e segue até o estuário no Atlântico, em ciclos que duram de 1 a 2 anos. A migração ocorre quando as águas se tornam turvas pelas chuvas anuais na região.
Ação internacional, proposta pelo Brasil, busca manter o rio conectando as áreas de desova e alimentação do dorado e de outras seis espécies de bagres migratórios. O acordo foi assinado ontem durante a Convenção para a Conservação de Espécies Migratórias (CMS), com apoio da ONU, envolvendo seis países da Amazônia.
Segundo especialistas, a conectividade fluvial depende de planejamento ambiental desde a construção de obras hídricas. Barragens existentes podem ser acompanhadas de intervenções como escadas para peixes ou remoção de estruturas obsoletas para facilitar a passagem dos migradores.
O dorado desova nas nascentes andinas, desloca-se rio abaixo até o estuário, onde os juvenis se alimentam e crescem, antes de retornar para as encostas para a reprodução. Especialistas destacam que esse peixe é crucial para a alimentação e a economia local em dezenas de municípios ribeirinhos.
A migração depende de práticas que considerem o ecossistema de toda a bacia. Em 2019, estudos indicaram queda expressiva de dorados na Bolívia após a construção de barragens rio abaixo, evidenciando o efeito cascata de obras sobre a fauna aquática.
O plano de ação, já com o respaldo do CMS, visa coordenar esforços entre governos, comunidades pesqueiras artesanais e povos tradicionais. A ideia é padronizar a coleta de dados e ampliar o conhecimento científico local, inclusive com saberes indígenas.
Pontos de atenção incluem a contaminação por mercúrio decorrente de mineração e a sobrepesca, fatores que ampliam riscos de declínio populacional. Pesquisadores lembram que o dorado é predador de topo e sua perda afeta todo o ecossistema do rio.
Em um contexto regional, pescadores da bacia da Madeira ressaltaram a necessidade de ação coordenada e urgente. Eles destacam que a cooperação internacional precisa incluir as comunidades locais para ter sucesso a longo prazo.
A iniciativa é vista como marco para a conservação da biodiversidade da Amazônia. Especialistas apontam que o acordo pode servir de modelo para outras bacias transfronteiriças, incluindo o Delta do Mekong, que também enfrenta desafios de migração de peixes.
O relatório da CMS sobre peixes de água doce aponta que, globalmente, 325 espécies migratórias necessitam de proteção internacional. Dados indicam que a diversidade de espécies no Brasil, onde vivem centenas de peixes de água doce, é particularmente alta.
A adoção do plano marca uma mudança de estratégia, priorizando soluções cooperativas que atravessam fronteiras. Segundo a CMS, a colaboração entre as nações amazônicas fortalece o conhecimento científico e a harmonização de políticas para a proteção de peixes migratórios.
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