- Estudo da Unicamp, publicado na Nature Communications, identifica mecanismo no esperma que transmite ao embrião o risco de disfunção metabólica associada à obesidade paterna.
- Em camundongos, a prole de machos obesos nascia com peso normal, mas ao longo dos dias desenvolvia intolerância à glicose e resistência à insulina, configurando disfunção metabólica silenciosa.
- O efeito envolve microRNA let‑7 ausentes no tecido adiposo e no esperma; esse excesso é transferido ao zigoto e inibe a enzima DICER no embrião, prejudicando mitocôndrias e regulação de genes.
- Perder peso antes da concepção eliminou as marcas do excesso de let‑7, com as próprias moléculas voltando aos níveis normais no tecido adiposo e no esperma.
- Em humanos, quinze homens com obesidade severa apresentaram excesso de let‑7; após seis meses de mudança de estilo de vida, os níveis da molécula caíram, indicando reversibilidade do fenômeno.
A obesidade paterna pode alterar o metabolismo dos filhos, revelam pesquisadores da Unicamp em cooperação com a Universidade do Sul da Dinamarca. O estudo mostra um mecanismo pelo qual o esperma transmite alterações metabólicas ao embrião.
Em camundongos, a prole de machos obesos nascia com peso normal, mas evoluía para intolerância à glicose e resistência à insulina ao longo de meses, configurando uma disfunção metabólica silenciosa. Os autores destacam que o problema se manifesta mesmo sem ganho de peso nos filhotes.
Quando os genitores emagrecem, as marcas deixadas pela obesidade no sêmen desaparecem, indicam as análises. A constatação foi validada também em humanos, segundo os pesquisadores.
Mensageiros químicos
Durante o experimento, o grupo identificou microRNA let-7, especialmente as variações let-7d e let-7e, em tecido adiposo de ratos alimentados com dieta rica em gordura. Esses microRNAs também aparecem no espermatozoide e são transferidos ao zigoto.
No embrião, o excesso de let-7 inibe a enzima DICER, crucial para maturação de outros microRNAs que regulam genes importantes. A partir dessa sequência, as células embrionárias desenvolvem disfunção mitocondrial, alterando o manejo de energia no tecido adiposo.
Reversão e validação
Em experimentos adicionais, a injeção de let-7 em zigotos de animais saudáveis reproduziu as alterações metabólicas observadas nos filhotes obesos. Em contrapartida, dietas que levaram à perda de peso resultaram na queda dos níveis de let-7 no tecido adiposo e no esperma.
Ao cruzar machos emagrecidos, a prole nasceu saudável como a de animais que nunca haviam engordado. Em humanos, 15 homens com obesidade severa passaram por intervenção de seis meses e mostraram redução significativa do let-7 no tecido adiposo e no sêmen.
Implicações e próximas etapas
Os pesquisadores destacam que a saúde masculina pode influenciar o metabolismo da prole por meio do esperma. Estudos continuam para entender de onde vêm os microRNAs let-7 e como eles se transferem para o gameta.
Segundo os autores, intervenções de saúde e longevidade, como atividade física, podem elevar a expressão da enzima DICER e reduzir riscos metabólicos.
A pesquisa envolve a Unicamp, com coordenação de Marcelo Mori, e a cooperação do pesquisador dinamarquês Jan-Wilhelm Kornfeld. A validação em humanos reforça a importância de hábitos antes da concepção.
Fonte: Agência FAPESP.
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