- O Lago Turkana, na região norte do Quênm, aumentou de nível nos últimos anos, submergindo até 1.000 quilômetros quadrados de litoral e afetando aldeias, estradas e áreas de pastagem.
- A elevação das águas separou famílias e comunidades na ilha formada pela água, levando alguns moradores a permanecerem na região recém-criada, mesmo com pressão para relocação.
- A pesca, fonte de alimento e renda, ficou mais difícil: a captura mensal de James Lekubo caiu pela metade, e outros pescadores relatam menos peixes nas águas próximas.
- O aumento da atividade pesqueira, aliado a melhor infraestrutura de acesso e maior demanda, fez o setor crescer, mas com peixes de menor porte, prejudicando espécies maiores e a economia local.
- Tensões entre comunidades locais aumentaram conforme pescadores migram para áreas disputadas; ataques e conflitos já foram registrados, ampliando o risco para a subsistência na região.
KOMOTE, Kenya — O lago Turkana continua a crescer, deslocando comunidades ribeirinhas e alterando a pesca na região. Em Komote Island, famílias uem vivem da água observam a expansão do lago, que cobre áreas antes secas e liga diretamente aldeias a escolas e unidades de saúde que ficaram do outro lado da água.
O fenômeno é associado ao aumento do nível do Turkana nos últimos anos. Dados de 2021 apontam que o nível da água subiu várias metros, ampliando a área de manbra em cerca de 10% em uma década, efeito de chuvas mais intensas na Etiópia. Desde então, o lago ganhou ainda mais superfície, engolindo comunidades, estradas e áreas de pastagem.
A situação afeta diretamente os El Molo, a menor etnia do Quênia, que há séculos habita as margens leste do lago. Em Komote, algumas famílias resistem à relocação para comunidades no continente, apesar das pressões governamentais da prefeitura de Marsabit. A região já registra redes de ensino e saúde distantes, alcançáveis apenas por meio de embarcações.
A pesca, principal fonte de sustento, enfrenta queda de produtividade. O aumento das zonas alagadas destruiu áreas de reprodução, reduzindo a captura mensal para uma fração do que era antes. Paixões locais relatam diminuição de espécies de maior porte, com impactos na renda e no custo do transporte escolar por barco.
Ao redor do lago, comunidades de diferentes origens relatam queda constante nas capturas. A expansão da atividade pesqueira, motivada por secas prolongadas que empurraram pessoas para a pesca, soma-se a melhoria de acesso e à demanda urbana por pescado, elevando a mobilidade dos barcos e a competição por áreas férteis.
Dados oficiais indicam que a produção pesqueira no Turkana aumentou entre 2010 e 2022, saindo de cerca de 6,4 mil para 17,3 mil toneladas, mas recuou para aproximadamente 15,6 mil em 2023. A explicação provável é a elevação do nível da água limitando o acesso aos fundos de pesca, segundo análises de programas internacionais.
O aumento do número de pescadores preocupa pela elevação de conflitos entre etnias locais, especialmente entre Turkana e Dassanech, com incidentes registrados nas margens do lago. Em 2023, casos de violência próxima à fronteira Kenya-Etiópia intensificaram o temor de novos confrontos, à medida que as comunidades migraram para áreas menos contenciosas.
Especialistas ressaltam que o sistema do Lago Turkana já é sensível a variáveis naturais e humanas, e que a confluência de mudanças climáticas pode acentuar a elevação de nível de água nas próximas décadas. A perspectiva aponta para mais deslocamentos de comunidades e para o desafio de manter a viabilidade econômica da pesca ali existente.
Mesmo diante das dificuldades, algumas famílias continuam a depender do lago como fonte de alimentação e renda. Enquanto as comunidades negociarem formas de adaptação, a cultura local guarda a esperança de manter a conexão com o Turkana, mesmo diante das mudanças rápidas que redefinem o cotidiano na região.
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