- Em 1987, uma cápsula com Césio-137 de radioterapia foi manipulada sem conhecimento do risco, espalhando pó pela cidade de Goiânia.
- A maior operação de saúde pública do Brasil monitorou cento e doze mil, oitocentos pessoas; duzentas e cinquenta e nove tiveram algum grau de contaminação e cento e vinte e nove precisaram de acompanhamento médico.
- Quase quarenta anos depois, os sobreviventes ainda convivem com sequelas físicas e emocionais da contaminação.
- A reportagem destaca relatos de vítimas e familiares, como Odesson Alves Ferreira, Lourdes das Neves, Luiza Odete e outras, além de mortes ocorridas na tragédia (ex.: Leide das Neves Ferreira, Maria Gabriela Ferreira).
- A história é apresentada na série Memórias radioativas do Metrópoles, que reúne materiais sobre as vítimas, pensionistas e impactos da tragédia.
O acidente com o Césio-137 em Goiânia, ocorrido em 1987, é considerado o maior registro de contaminação radiológica no Brasil. Um equipamento de radioterapia abandonado foi aberto sem conhecimento do risco, espalhando pó de brilho azulado pela cidade. Moradores manipularam o material sem perceber a gravidade da exposição. A resposta de saúde pública envolveu monitoramento de milhares de pessoas.
Ao todo, 112,8 mil indivíduos foram acompanhados de perto pela vigilância sanitária e pela rede de saúde. Desses, 249 apresentaram contaminação e 129 necessitaram de acompanhamento médico continuado. A tragédia mobilizou uma das maiores operações de saúde pública já vistas no país.
A narrativa completa é revisitada pelo portal Metrópoles em uma série especial, Memórias radioativas, que recapitula vítimas, ações públicas e os impactos duradouros. As reportagens destacam lições sobre resposta a emergências e assistência às famílias afetadas.
Sobreviventes
Odesson Alves Ferreira, 32 anos na época da contaminação, teve contato ao manusear o material na casa do irmão. Trabalhou como motorista de ônibus por oito dias durante a contaminação, transportando cerca de mil passageiros por dia. Internado por meses, perdeu parte da mão e foi submetido a reconstrução de tecidos. Hoje atua como ativista pelos direitos das vítimas e vive no interior de Goiás.
Lourdes das Neves, mãe de Leide das Neves, viu a filha morrer e a residência ser devastada pela contaminação. Ela recebeu moradia governamental em Aparecida de Goiânia e, aos 74 anos, cuida do marido que enfrentou depressão profunda. A casa atual foi cedida pelo estado.
Luiza Odete, tia de Leide, foi exposta quando a sobrinha mostrou a “pedrinha iluminante”. Um pedaço de papel com o material foi passado no pescoço dela, causando lesões graves. Permanece com cicatrizes da contaminação após meses de internação e hoje tem 66 anos.
Geraldo da Silva Pontes, trabalhador de ferro-velho, ajudou a levar a cápsula até a Vigilância Sanitária. Carregou o objeto no ombro por dois quarteirões e também ficou com marcas da radiação. Hoje convive com sequelas físicas da exposição.
Mortes
Leide das Neves Ferreira, de 6 anos, tornou-se símbolo do acidente ao brincar com o pó contaminado e ingerir radiação. Ela faleceu em 23 de outubro de 1987 devido à exposição.
Maria Gabriela Ferreira, esposa de Devair Ferreira e peça-chave ao suspeitar dos efeitos do material, retirou a fonte da circulação. Morreu aos 37 anos, na mesma data de Leide, pela radiação.
Israel Baptista dos Santos, funcionário do ferro-velho, participou da abertura do aparelho e teve contato direto com o pó. Morreu em 27 de outubro de 1987, aos 22 anos.
Admilson Alves de Souza, também trabalhador do ferro-velho, ajudou a desmontar o equipamento. Morreu em 18 de outubro de 1987, aos 18 anos, pela exposição.
Devair Alves Ferreira, dono do ferro-velho, sobreviveu aos impactos iniciais, mas faleceu aos 43 anos, em 1994, de cirrose hepática. A tragédia associou-se a depressão e alcoolismo na sequência.
Ivo Ferreira, pai de Leide, morreu 15 anos após o acidente devido a enfisema pulmonar, agravado pelo tabagismo e pelos efeitos da radiação. Ele enfrentou depressão e sofrimento emocional após a perda da filha.
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