- Charles Lieber, cientista americano condenado nos EUA por mentir sobre vínculos com a China, voltou a pesquisar na China e lidera o i-BRAIN (Instituto de Pesquisa Cerebral, Interfaces Avançadas e Neurotecnologias) em Shenzhen.
- O laboratório está financiado pelo governo chinês e tem acesso a instalações de nanofabricação e a infraestrutura de pesquisa com primatas na SMART, braço da Academia Médica de Pesquisa e Tradução de Shenzhen.
- Em fevereiro, o i-BRAIN instalou sistema de litografia ultravioleta profunda da ASML; Lieber foi nomeado investigador e, posteriormente, diretor fundador, conforme anúncio da i-BRAIN em 2025.
- A China classificou interfaces cérebro-computador como prioridade nacional, com orçamento de cerca de US$ 153 milhões para a SMART em 2026; o financiamento não especifica a parcela para o i-BRAIN.
- Especialistas destacam que a presença de Lieber e o acesso a tecnologia avançada podem indicar diferenças entre salvaguardas norte-americanas e os esforços chineses para desenvolver aplicações militares da tecnologia.
Charles Lieber, cientista americano condenado nos EUA por mentir sobre vínculos com um programa chinês, reergueu seu laboratório em Shenzhen, China. A nova instalação foca em interfaces cérebro-computador e envolve acesso a nanofabricação e infraestrutura com primatas. O objetivo declarado é desenvolver tecnologia considerada prioridade nacional pela China.
O pesquisador de 67 anos dirige o i-BRAIN, Instituto de Pesquisa Cerebral, Interfaces Avançadas e Neurotecnologias, financiado pelo Estado chinês. O laboratório está ligado à Academia Médica de Pesquisa e Tradução de Shenzhen, a SMART, com apoio financeiro de Shenzhen para pesquisas de alto impacto.
Segundo a Reuters, Lieber chegou à China em 28 de abril de 2025, após deixar Harvard. Ele descreveu a mudança como um passo para tornar Shenzhen líder mundial em neurotecnologia, em participação pública de autoridades locais. Lieber não comentou pedidos de entrevista.
O i-BRAIN teria acesso a equipamentos de litografia ultravioleta profunda da ASML e a uma infraestrutura de pesquisas com primatas na Infraestrutura de Ciências Cerebrais de Shenzhen (BSI). A BSI abriga cerca de 2.000 gaiolas para primatas e espaço dedicado às pesquisas do instituto, segundo o site da i-BRAIN.
Analistas destacam que a presença de Lieber facilita o treinamento de pesquisadores internacionais no ecossistema financiado pelo governo de Shenzhen. O orçamento da SMART para 2026 subiu para cerca de US$ 153 milhões, com parte não especificada destinada ao i-BRAIN. A operação ocorre em um polo científico próximo ao Laboratório da Baía de Shenzhen.
Em Harvard, Lieber integrava sistemas de nanoescala, mas não há indícios de pesquisas com primatas na instituição. A mudança para Shenzhen envolve também a coautoria com Jung Min Lee, que deixou Harvard para atuar no i-BRAIN como professor associado. Lee é especialista em integrar componentes eletrônicos ao tecido cerebral.
A tecnologia de interfaces cérebro-computador tem potencial para tratar doenças como a esclerose lateral amiotrófica e para restaurar movimentos em pacientes paralisados. Em termos estratégicos, o tema também tem aplicação militar, com dissertações sobre uso em defesa pelo Exército de Libertação Popular, conforme relatos de autoridades norte-americanas.
O caso Lieber é visto por alguns analistas como demonstração de lacunas nas salvaguardas norte-americanas para tecnologias com uso dual. A China tem enfatizado uma estratégia de fusão civil e militar, ampliando investimentos em pesquisas de alta tecnologia com apoio estatal. Observadores ressaltam o papel de talentos retornando ao país.
O Ministério da Ciência e Tecnologia da China e o Ministério da Defesa não forneceram comentários sobre as pesquisas de interfaces cérebro-computador. A presença de Lieber em Shenzhen, com o apoio de instituições públicas, continua sob escrutínio de analistas e autoridades internacionais.
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