- Comunidades de áreas leste da Indonésia retomam sistemas tradicionais de gestão costeira para proteger ecossistemas marinhos, com sanções comunitárias, patrulhas e fechamentos sazonais.
- Solor, East Nusa Tenggara, trabalha com kebang lewa lolon, ou “granários marinhos”, para manter recifes, reduzir pesca de explosões e proteger ninhos de tartarugas.
- Em Wabula, Buton, o sistema Kaombo regula o uso das áreas marinhas e prevê sanções; há também o ritual Kaleo Leo para responsabilizar violadores.
- Langkai e Lanjukang, Sulawesi do Sul, seguem fechamentos periódicos de cerca de três meses para áreas de pesca de polvo, permitindo recuperação de meganças e recifes.
- Em Banggai, Central Sulawesi, manguezais sustentam a atividade pesqueira (caranguejos de mangue) e geram empregos; há reflorestamento e uso de subprodutos de mangue, como sabão, produzido por mulheres.
O documentário Jejak Wallacea acompanha comunidades de ilhas leste da Indonésia que resgatam regras locais, fechamentos sazonais de pesca, proteção de tartarugas e manejo de manguezais para conservar ecossistemas marinhos. A produção é de Burung Indonesia e Arise! Indonesia, dentro do Wallacea Partnership Program II.
A obra foca em áreas de East Nusa Tenggara, Sulawesi do Sul, Sulawesi Central e Sulawesi Central, mostrando como sanções tradicionais, patrulhas comunitárias, fechamentos de pesca de polvo, restauração de recifes, criadouros de tartarugas e meios de subsistência baseados em manguezais ajudam a proteger o ambiente marinho.
Solor, East Nusa Tenggara, aparece como exemplo inicial: comunidades apoiadas por Yayasan Tanah Ile Boleng trabalham para reduzir a pesca explosiva e manter os recifes como berçários de peixes. São áreas chamadas kebang lewa lolon, ou “granários marinhos”.
Solor: conservação baseada em saber local
Lideranças locais, autoridades e instituições religiosas definem onde ficam os granários marinhos, como operam e as sanções aplicáveis. Também foram criados ninhos de tartarugas para impedir a caça, com monitoramento realizado por membros da comunidade.
Wabula, no Buton, Sulawesi do Sul, demonstra governo costeiro arraigado em Kaombo, sistema tradicional de manejo de áreas marinhas. A área integra a Wabula Key Biodiversity Area e recebe apoio institucional para fortalecer a gestão pesqueira comunitária e dados sobre recursos.
Wabula: Kaombo e mecanismos de sanção
O Kaombo estabelece limites de uso e prevê multas para violadores. Há ainda o ritual Kaleo Leo para casos de responsabilidade contestada, envolvendo imersão ritual na água. Grupo de monitoramento comunitário registra biodiversidade para criar um banco de dados local.
Langkai e Lanjukang, Sulawesi do Sul, exibem encerramento periódico de áreas de pesca de polvo. O esquema, apoiado pela Yayasan Konservasi Laut Indonesia, fecha áreas por cerca de três meses e permite captura apenas de polvo adulto na abertura.
Octopus grounds e livelihood
Essa prática busca manter estoques e melhorar condições de recife durante as pausas, fortalecendo ao mesmo tempo meios de subsistência locais. Tely Dasaluti, da Secretaria de Povos Indígenas, reforça que comunidades reconhecidas formalmente podem pleitear inclusão de territórios tradicionais em planos estaduais.
Banggai, Central Sulawesi, destaca manguezais como suporte a crabiídeos-chave e a atividades de pesca. Em Lipu Akat, comunidades protegem manguezais, replantam mudas e regulam a captura de caranguejos jovens para ampliar reprodução.
Manguezais e inovação feminina
A proteção dos manguezais também gera uso econômico: mulheres da comunidade produzem sabão de folhas de mangueira e ajudam na gestão de áreas para crabs. A mudança de percepção sobre manguezais evidencia o papel desses ecossistemas na continuidade de meios de subsistência locais.
O filme aponta que políticas públicas devem reconhecer saber tradicional como ferramenta de conservação. O governo considera a possibilidade de integrar práticas como sasi e ombo a regulamentações regionais, fortalecendo áreas não cobertas por MPAs formais.
A iniciativa também discute o conceito de OECMs, áreas geridas localmente com conservação efetiva fora de áreas protegidas formais. O documentário evidencia resultados positivos em espécies-chave, incluindo peixes e tartarugas, destacando a necessidade de apoiar iniciativas comunitárias dentro de políticas nacionais.
Desdobramentos e desafios
O projeto Wallacea Partnership II, de 2020 a 2024, mostra impactos em várias espécies e regiões. Ainda assim, os organizadores ressaltam a importância de ampliar a adoção de modelos comunitários, integrando-os a políticas públicas para sustentabilidade além do financiamento de projetos.
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