- Lago Turkana subiu oito a dez metros nos últimos quinze anos, aumentando a área do lago em cerca de dez por cento e forçando deslocamentos de centenas de moradores em Kalokol.
- A vila Natole, onde o pescador John Esirite cresceu, foi abandonada e a antiga sede da BMU ficou submersa; Esirite precisou se mudar três vezes desde 2014.
- O aumento das águas se insere em uma tendência regional desde os anos dois mil, com enchentes intensificadas em 2020 e impactos severos na região nordeste do país.
- Pesca tem mudado: combinação de maior pressão, mudança na distribuição de peixes e redução de espécies maiores; produção de peixe no lago variou ao longo dos anos (em 2022 cerca de 17,3 mil toneladas, caindo para cerca de 15,6 mil em 2023).
- Infraestrutura local continua precária (pouca eletricidade e água potável) e há esforços com UNESCO, Programa Mundial de Alimentos e governos locais para ampliar dados e orientar manejo mais sustentável.
Kalokol, Quênia — O lago Turkana continua a subir, deslocando comunidades inteiras e afetando a economia pesqueira local. Nos últimos 15 anos, o nível da água cresceu cerca de 8 a 10 metros, ampliando a superfície em aproximadamente 10%.
Na vila de Kalokol, a Casa de Gestão de Pesca (BMU) observa o impacto direto. O antigo escritório fica parcialmente submerso, e pescadores como John Esirite, 62 anos, relatam ter sido deslocados várias vezes desde 2014. Sua terra natal, Natole, já não existe mais.
O aumento das águas, aliado a secas recorrentes, é parte de um padrão mais amplo que atinge a Rift Valley do Kenya. Enquanto o lago se expande, infraestrutura pesqueira e lares à beira do lago sofrem com o avanço, exigindo respostas rápidas e eficazes.
Ebbs and flows
Ikal Angelei, 44, cresceu a cerca de 50 km da margem e acompanhou o recuo do lago ao longo das décadas. Em 2008 houve alerta sobre o risco de secar o Turkana com a construção da barragem Gibe III, na Etiópia. A ONG Friends of Lake Turkana foi criada para mobilizar comunidades.
Em 2012, Angelei recebeu o Prêmio Goldman de Meio Ambiente pelas ações. A construção da barragem continuou e, em 2015, houve redução temporária dos cursos d’água. Contudo, o nível do lago acabou voltando a subir, com debates sobre as causas ainda em curso.
Especialistas apontam duas linhas de atuação: fortes chuvas na bacia hidrográfica e possíveis deslocamentos de água subterrânea ou deslocamentos tectônicos, ainda pouco estudados. Mudanças no fluxo do Omo também alteram a dinâmica do Turkana.
Lwiza, físico marinho, enfatiza que a dessedentação de sedimentos suspensos reduz a entrada de nutrientes e afeta peixes. A gestão atual depende de dados que vinham sendo escassos na região, o que dificulta políticas públicas eficazes.
A população ao longo da orla aumenta, elevando a pressão sobre os recursos. Pequenas elevações na água, hoje, causam maiores deslocamentos de comunidades vulneráveis, agravando o desafio de adaptação.
Pressões sobre a pesca
Dados da Kenya Fisheries Service mostram que a produção de peixes no Turkana subiu de 6.430 toneladas em 2010 para 17.251 toneladas em 2022, recuando para cerca de 15.600 toneladas em 2023. Mudanças ambientais ajudam a explicar o contorno da tendência.
Pesquisadores indicam que as condições do lago estão remodelando áreas de reprodução e distribuição dos peixes, especialmente em áreas rasas como Ferguson’s Gulf, ao norte de Kalokol. A atividade pesqueira diminuiu entre 2024 e 2019, com menor disponibilidade de grandes espécies.
A county Turkana vive períodos de seca severa, o que aproxima mais moradores da pesca na beira do lago. Joseph Edapal, pescador de Kalokol há anos, relata aumento da presença de novos pescadores, mas menor disponibilidade de peixe.
A infraestrutura básica na região permanece limitada. Apenas uma fração de pontos de desembarque recebe eletricidade e água potável é acessível para poucos. A melhoria de dados e infraestrutura deve acompanhar as ações de conservação.
A cidade de Kalokol abriga ainda o que restou de uma antiga fábrica de processamento de peixe, conhecida como NORAD, abandonada após crises econômicas e mudanças climáticas. A memória do local simboliza o conjunto de intervenções falhas anteriores para desenvolver a região.
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